Capítulo 18

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Atlas roía as unhas de forma ansiosa, tentando não pensar muito na ideia de que Austin entraria pela porta a qualquer momento.

Maldita aula de culinária.

De quem havia sido mesmo a brilhante ideia de Austin se inscrever nessa matéria? A tortura ainda duraria até o fim do ano.

Quando a porta se abriu, ele não precisou levantar os olhos para saber quem era.
Austin deu uma olhada pela sala, o olhar passando por Atlas por meio segundo. Meio segundo. Era quase nada, mas o suficiente para Atlas sentir a indiferença. Austin desviou o olhar como se ele nem estivesse lá ou, talvez, só não se importasse mesmo.

Atlas revirou os olhos. Claro, ele praticamente pediu para Austin sumir, mas isso não significava que ele precisava ser tão bom nisso.

Ou, quem sabe, ele estivesse sendo muito egoísta em desejar que o ruivo demorasse um pouco mais para superar aquilo.

Austin foi direto para a bancada de Denise, o que era óbvio. O moreno observou de rabo de olho enquanto ele trocava algumas palavras com ela. Eles até estavam rindo e alto. Sério? Que piada ele contou? Deve ser algo idiota como sempre. Tudo o que ele dizia era mesmo desinteressante, então, quem se importa, não é mesmo?
Atlas bufou, amarrando o avental com mais força do que o necessário. Isso era uma tentativa de provocação? O pensamento fez o garoto roer ainda mais as unhas.

— Espero que você não cozinhe com esses dedos babados. — Uma garota parou ao lado dele, puxando o avental com a mesma energia de alguém arrancando um Band-Aid. — Então, parece que nós vamos ter que fazer isso juntos, né? — Resmungou, com um tom que misturava drama e desgosto. — Já que a sua dupla e a minha decidiram nos largar.

— Ele não me largou. Eu que quis ficar sozinho.

— Que sorte a sua. — Ela disse, revirando os olhos. — A Denise disse que não dava mais pra fazer "isso" comigo.

Ela fez aspas com os dedos e lançou um olhar cheio de veneno na direção de Denise e Austin. Atlas seguiu o olhar e não gostou muito do que viu. Lá estavam eles, cochichando como se fossem confidentes. Como se alguém se importasse com isso.

Os dois ficaram encarando a cena por alguns segundos.

— A gente devia jogar farinha neles. — A garota sugeriu, do nada.

Atlas riu, o pensamento era tentador.

— Melhor seria se você fosse comigo e com o Plínio na festa. Não posso deixar de sair com ele só porque a minha vida está uma merda, né? — Atlas sugeriu e, em seguida, se aproximou, sussurrando para a garota — Mas não é um encontro, eu sou...você sabe, gay.

— Nossa, obrigada, Atlas. Se você não tivesse me avisado eu nunca saberia.

— Bom, nem todo mundo parece ter essa noção, já que essa escola está cheia de garotas se apaixonando por caras gays no armário e vice-versa. — O moreno olhou de canto, elevando o tom para além da conversa, fitando novamente Denise e Austin. A garota do seu lado pareceu acompanhar o raciocínio e sorriu um pouco.

Austin, obviamente, notou o olhar provocativo de Atlas e decidiu que não ficaria calado. Ele se inclinou levemente para Denise, falando alto o suficiente para que todos ouvissem.

— Você já percebeu como algumas pessoas adoram bancar os moralistas, mas na verdade só ajudam os outros por pura maldade? — Ele olhou para Atlas com uma sobrancelha arqueada, fingindo indiferença.

Atlas não perdeu tempo. Colocou o fouet de lado e se virou para Paige, exagerando no tom casual.
— É até engraçado, Paige, quando alguém quer falar de maldade, mas não pensa duas vezes antes de constranger outra pessoa na frente da escola inteira só pra conseguir o que quer.

Denise segurou o riso, mas antes que Austin pudesse rebater, Paige entrou na conversa, aproveitando a deixa de Atlas e lançando um olhar fuzilante para Denise.

— Você está absolutamente certo, Atlas — disse ela, com uma doçura ácida. — Algumas pessoas adoram se enganar.

Denise arqueou uma sobrancelha, inclinando-se ligeiramente em direção à Paige.

— Austin é incrível como tem gente que não supera que outras pessoas possam não ser como elas.

Paige engasgou com a resposta, mas antes que pudesse responder, Austin apontou para Atlas com o dedo coberto de farinha.

— Interessante é ouvir isso de quem só fica na defensiva, tratando mal as pessoas que tentam se aproximar, porque na verdade é muito covarde pra se permitir viver qualquer coisa. — Austin, com os olhos fixos em Atlas, soltou a frase com uma frieza cortante, como se estivesse tentando atingir algo mais profundo.
Atlas não respondeu imediatamente. Ele apenas observou o ruivo com uma calma calculada, como se estivesse avaliando cada palavra que acabara de ser dita.

Paige, ainda com as palavras presas na garganta, deu um sorriso enviesado, aquele tipo de sorriso que não escondia nem um pouco a provocação.

— Você não parecia insatisfeita na semana passada quando bateu na minha porta de madrugada pedindo pra entrar depois que ele te chutou.

Denise ficou vermelha na hora, os punhos fechados ao lado do corpo. Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância entre as duas, e respondeu com a voz firme:

— Você fala muita merda.

Enquanto isso, na outra bancada, Austin cruzou os braços, o olhar fixo em Atlas, como se esperasse que ele dissesse algo — ou talvez apenas uma reação qualquer. Atlas, por sua vez, fingia uma indiferença que não convencia ninguém, o maxilar rígido entregava que ele estava absorvendo cada palavra que era despejada ali.

— Pelo amor de Deus, façam um grupo no WhatsApp, uma live no Instagram, ou sei lá, uma batalha de rimas no YouTube! Qualquer coisa, mas parem com esse show! Não dá pra me concentrar assim! — O grito veio da bancada logo atrás de Atlas e Paige, onde um garoto de cabelos loiros espetados e óculos redondos estava com a expressão mais indignada possível. Vestindo um moletom oversized de cor vibrante, ele mascava chiclete, deixando o aroma forte de menta no ar.

Todos se viraram para ele, que não perdeu a chance de se levantar teatralmente e apontar para o grupo.

— Porque, assim, eu tô adorando a sessão de terapia coletiva, a energia passivo-agressiva e tudo mais, mas eu só tô aqui tentando aprender a fazer a droga de um soufflé. Vocês podem, sei lá, guardar o drama pra depois?

Ele estalou o chiclete, cruzando os braços com um ar de triunfo, esperando que alguém tivesse coragem de retrucar.

Paige abafou o riso com as mãos, mas falhou miseravelmente. Denise revirou os olhos, Atlas balançou a cabeça com um sorrisinho quase imperceptível, e Austin apenas voltou a misturar a massa com força demais.

Nenhum deles parecia orgulhoso da discussão, e todos rapidamente voltaram ao que estavam fazendo, como se a cena nunca tivesse acontecido, mas o climão ainda era visível.

Nenhum deles parecia orgulhoso da discussão, e todos rapidamente voltaram ao que estavam fazendo, como se a cena nunca tivesse acontecido, mas o climão ainda era visível

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NOTA

✎ Gente, eu queria ter voltado com todos os capítulos restantes pra vocês, mas estou com muita dificuldade para escrever. Mesmo que eu tenha algumas cenas prontas e mais ou menos em mente o que quero escrever, simplesmente não consigo encaixar as coisas.
Nesse mês todo que sumi, só tinha conseguido escrever um capítulo. Mas incrivelmente, consegui desenvolver outro do nada nessa madrugada.
Então cá estou eu de novo.
Senti falta de vocês ♡

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