Navio de Teseu

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Não consigo manter um sorriso por muito tempo,
tudo que me faz me perder em distrações
se dissolve no grande filtro da melancolia.

Minha pele coça ardentemente,
mas não sei a onde,
há espaços em branco, mas não vejo cores,
minha mão sente o azul do céu,
mas não o alcança.

Me pergunto se preciso de mais anos distante,
para que possa dizer que existo
há mais tempo longe do que em instantes.

Nasci tão longe de qualquer distância,
mas me perdi nas proximidades
das flores que lotam a realidade,
longe de minha infância.

Quanto tempo posso ficar de férias,
e ainda me considerar um estudante?
Quantos pedidos devo colecionar,
para deixar de ser visto como um amante,
quanto tempo,
tão pouco tempo,
tanto tempo.

E é difícil continuar trabalhando quando não sei se toda essa terra que estou cavando
é para minha casa ou meu túmulo.

Todos esses buracos em mim,
eu sou o que me foi tirado,
o que resta, ou ambos?

Ideias minhas vivem em outros cérebros,
mas eu não saberia dizer quando elas forem substituídas.

Se eu era genial, como me tornei só mais um arquivo 

em uma infinita coleção de ideias arquivadas?

Será que minhas mãos vão funcionar
quando de volta as letras elas se encaixarem,
quando o escuro não for suficiente para me apagar, eu ainda saberei pensar?
Quando não houverem mais memórias
para a chuva limpar, eu ainda saberei amar?

Ouço sons diferentes recentemente,
mas sempre os descrevo da mesma forma,
sinto que o labirinto da minha ignorância
me impede de a tempestade em texto admirar,
de a beleza que meu cérebro sente,
forma eu ver tomar.

Tenho vontade de rasgar essas folhas,
mas isso não faria esse sentimento pó virar,
o vento levar, na água se afogar,
mas mesmo que fizesse, sei que o cheiro da terra
ainda continuaria no ar.

Escrever é tentar desvendar o maior mistério da existência

HARTTSOnde histórias criam vida. Descubra agora