Um inferno de concreto,
dos corações até as nuvens,
cinza, do céu aos pulmões,
pessoas se afogam, longe dos mares,
se intoxicam, longe dos bares,
vivem, mas longe de seus lares.
Em um chão de inverno,
abraçado por seu dono,
um cachorro dormindo com frio treme,
na frente de um portão,
que vale mais do que suas vidas.
Dentro daquela casa, chora uma professora,
por mais um direito sacrificado,
uma doença diagnosticada,
e pelo aquecedor quebrado.
Nos meios de multidões dissociadas pelos fins,
almas são criadas e assassinadas,
tudo que não corre é empurrado,
tudo que é vivo acaba sendo levado,
e os mortos
pisoteados.
Todo lugar pode ser uma casa,
se o significado de lar,
for não o ter,
se o significado de viver,
for sobreviver,
se estar acordado,
for não perceber.
Culpados até que se prove o contrário,
drogados, até que sirvam para algo,
sujos e podres, até que sejam estuprados,
vidas, mas só para que um ponto seja provado.
Um lugar onde quanto mais alto você estiver,
maior o seu parecer poder,
até que seja um trabalhador em uma corda,
ou um pobre,
no topo de uma ponte.
Pessoas transparecem o vazio em seu andar,
e só nadam pelos ares aqueles que
do vazio só ouviram falar.
Sonhos se perdem em concretos destruídos,
futuros se vendem em mãos apertadas,
crianças são mortas em mandados assinados,
e se afunda nas chamas dos concretos
todos aqueles que precisam respirar.
Cheia, mas tão vazia,
uma cidade de Paulos,
mas sem santos.
