Capítulo 27

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-«-«- Fulga -»-»-

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— Qual foi a única coisa que eu pedi?

As crianças nem tinham passado pela entrada do marui quando o pai começou a repreendê-las.

— A única coisa?! — Ele ficou de pé, olhando para o filho mais novo à sua frente.

— Fique longe de problemas. — Lo'ak respondeu.

— Fique longe de problemas, isso mesmo! — O pai exclamou, fazendo com que Neteyam desse um passo à frente.

— Senhor, foi minha culpa.

— Não, eu não acho isso- você tem que parar de levar a culpa por esse idiota. — Jake cerrou os dentes e At'anua puxou o garoto de volta pelo pulso, agitado por ele continuar se pintando como o bode expiatório.

A garota ficou mais irritada ao perceber que o irmão levaria a culpa de começar uma briga com o filho do chefe e seus amigos, mas não conseguiu ficar quieta sobre ela ir além do recife uma vez.

— Olha, pai, — começou Lo'ak. — Ao'nung estava pegando no pé da Kiri! — Ele argumentou, aproximando-se do homem. — Ele a chamou de aberração.

E com isso o pai da família visivelmente redirecionou sua raiva, seu coração pesando pela garota e um segundo de silêncio se passou antes que ele falasse quase envergonhado, mas ele escondeu bem demais para que as crianças não percebessem.

— Desculpe-se com Ao'nunn.

— O quê? — O homem olhou para a garota que ainda tinha sangue seco sob o nariz que falava pela primeira vez.

O homem foi pego de surpresa quando a filha, que normalmente acenava e obedecia, levantou a voz para o homem em protesto, mas ele entendeu.

— Ele é o filho do chefe, você entende? — Ele argumentou com as crianças que tinham expressões semelhantes.

Neteyam acalmou a irmã antes que ela abrisse a boca sobre a falta de moral que as crianças foram criadas em comparação a eles, o que poderia resultar em imensas críticas.

Jake ignorou sua filha com um aceno de cabeça e se virou para seu filho mais novo.

— Não importa como você faça isso, apenas vá fazer as pazes, vá! — Ele dispensou o menino e a menina fez o mesmo, seguindo o mais novo para fora do casulo, mas foi parada por seu pai, segurando-a.

Ele virou o rosto dela entre as mãos, perto do queixo, e a examinou em busca de arranhões e hematomas, os quais ela não tinha muitos, exceto o sangramento no nariz, que já havia sarado.

— Então, como os outros caras se parecem? — Ele perguntou ao filho, soltando a filha que ainda tinha que se acalmar.

— Pior. — Neteyam admitiu, ao que o pai assentiu.

— Isso é bom. — Jake aprovou, fazendo Neteyam sorrir triunfantemente.

— Muito pior.

— Saiam daqui. — O pai dos gêmeos dispensou as duas crianças e se virou para esconder o sorriso satisfeito e o brilho nos olhos.

At'anau observou seu irmão seguir os passos de Lo'ak e decidiu arriscar e escapar pelo outro caminho, mas o irmão gêmeo percebeu.

— Onde você vai?

— Vá fazer as pazes por nós dois antes que eu bata em mais alguém. — Ela falou por cima do ombro. —  Preciso de um minuto. — Ela deu de ombros, esperando que o irmão que a conhecia muito bem ignorasse esse único sinal de travessura, mas ela sabia que não era bem assim, pois o garoto começou a segui-la.

— Papai nos disse para-

— Eu disse, que preciso de um minuto. — At'anau sabia que ela estaria se sentindo culpada pela forma como ela zombou do rosto de seu irmão, mas ela era conhecida por ser a parte irracional dos dois.

— Se perguntarem sobre meu paradeiro, — Ela desviou seus olhos afiados para a água procurando por uma desculpa. — Diga a eles que não tava me sentindo bem. — Ela deu de ombros antes que Neteyam visse seus olhos ficarem mais frios. — Se não for muita mentira para você, é claro.

O irmão abriu a boca para protestar, mas não tinha nada a dizer e engoliu suas palavras vazias enquanto observava sua irmã se virar e montar no ilu que ouvira seus chamados anteriores.

At'anau não precisou olhar para trás para saber que havia deixado um irmão perturbado com pessoas que os dominavam por seus títulos.

Ela se sentiu como Lo'ak e sabia como ele deve ter se sentido um estranho antes mesmo da mudança para Metkayina. Ela obedecia a muitas regras, muitas ordens e engolia justificativas que ela não aceitava, mas ver seus pais perderem a voz dentro de um lugar cheia de pessoas que não faziam nada além de tirar vantagem de suas fraquezas, que eram seus filhos, estava chegando ao seu limite.

Mesmo que não fossem suas intenções, esses eram os danos que estavam sendo causados. Isso foi o suficiente para ela começar a julgar o comportamento da tribo dos Metkayinas.

Ela queria ser como seu irmão gêmeo, racional e persistente o suficiente para seguir sua mente, mas um deles tinha que ter características inferiores, e ela viveria por elas com orgulho se isso significasse que ela poderia realmente viver.

A garota estava se encontrando sem perceber que precisava ser procurada. Ela estava ali como uma conselheira para satisfazer seu pai, mas isso era resultado de sua compreensão. Essas ações das quais eles tinham que participar eram obscuras demais para que ela encontrasse o preto e o branco para sequer começar a compreender.

Talvez fosse o sal no ar ou a pressão em sua cabeça das nuvens bloqueando suas noites, ou talvez fosse o anseio por seu lar apenas do outro lado do mar. Ela calculou que um passeio rápido em um animal que pudesse converter suas emoções intensas para ela tiraria uma parte do fardo que o tijolo em sua garganta sendo forçada guela a baixo lhe dava.

At'anau não precisou chamar o animal, pois ele sempre vagava ao redor dela, já que o vínculo entre eles e os gritos do ilu acima da água deixavam claro que era hora da transferência.

At'anau amarrou melhor o equipamento do ilu ao redor do Tsurak, para que o animal também se sentisse menos desconfortável, pois a última coisa que a garota queria era se tornar uma hipócrita, mas o animal obedeceu mesmo assim e deixou a garota continuar.

O sol ainda alto no céu a provocava com as horas ainda livres para preencher com o que quer que fosse, mas era como se o tempo soubesse o que estava na mente da garota. E sabia que, uma vez que entrasse em sua cabeça, as portas seriam seladas de ambos os lados até que ela alimentasse a fome de alcançar o que quer que estivesse trancado.

A luz ardente acendeu a chama do desejo em seu coração, que só crescia.

E assim a menina seguiu o canto das sereias e dos pássaros no céu, através do recife no mar com marés estranhas e ventos diferentes, em busca de um pedaço de casa, a irmã que ela havia abandonado.

≪ °❇° ≫

Desculpem ter atrasado esse capítulo que era pra ter saído ontem. Tive um imprevisto no sábado e esse imprevisto me deixou cansada no domingo, por isso tô postando só agora. Desculpa o atraso, mas espero que tenham gostado.

Through the Valley¹ | Ao'nungHistórias para pegar e não largar. Descubra agora