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Lívia Alencar


- Movimentação! - Abel grita do meu lado vendo o jogo rolar e eu cruzo os braços.

- Eu já volto. - Aviso ao outro preparador que não se importa muito e presta atenção no jogo.

Desço as escadas de vestiário e entro, com a certeza de que ele está sozinho.

Me sento no banco e coloco as mãos na cabeça, me sentindo indisposta e com uma puta dor de cabeça.

Me levanto e jogo uma água no rosto, me assusto quando olho no espelho e vejo uma figura atrás de mim.

- Era para estar no campo... - Murmuro secando meu rosto e me viro, vendo Gabriel Menino me olhando com um sorriso de lado, que eu não gostei nenhum pouco

- Você também. - Se aproxima. - Está tudo bem?

- Ah, sim. Eu só vim passar uma água no rosto. - Sorrio simpática. - Eu vou voltar.

O vestiário não estava todo iluminado, eu não acendi as luzes quando eu entrei e ele também não.

- Você é muito linda, Lívia. - Diz quando eu paro na porta do vestiário e eu sinto meu corpo estremecer por algum motivo, antes que eu diga algo, ele diz por mim. - Mas é toda certinha com as regras, não ia ficar comigo, não é? A gente trabalha junto e isso acabaria com você.

Me viro rapidamente e olho nos seus olhos. Ele sabe?

Bom, algumas pessoas sabem mas eu não confio nesse cara, olha o jeito que ele está me abordando, ele me dá medo.

- É, é contra as regras. - É a única coisa que eu consigo dizer enquanto as mil e uma possibilidades se passam na minha cabeça, todas péssimas.

Me viro para sair outra vez mas sua mão no meu pulso me impede, me viro e tiro irritada por ele não largar do meu pé.

- A festa do título vai ser na minha casa, sei que vai aparecer. Talvez fique até mais tempo lá.

Não consigo conter a careta quando percebo o duplo sentido na sua frase e me sinto enojada só de pensar que eu tenho que ir mesmo.

Saio do vestiário sem nem olhar na sua cara e respiro fundo, me sentindo nervosa.

Ele sabe. Ele sabe. Ele sabe

Eram as únicas coisas que se passavam pela minha cabeça, não consegui prestar atenção no jogo.

E se ele decidir contar para alguém? Vai que ele é amigo do Leo Dias?

Eu estou ferrada.

♤♤♤

O Palmeiras está ganhando de 1×0 do Santos e faltam poucos minutos para esse jogo acabar.

Eu tentei ao máximo prestar atenção no jogo mas a única coisa em que pensava é que eu ia ter que falar disso para o Richard, querendo ou não.

Os jogadores estão cansados, Raphael senta no chão com uma careta de dor e levanta a mão, pedindo para sair.

Quando ele chega, senta no banco de reservas e eu me aproximo me abaixando perto do joelho, me obrigando a focar no meu trabalho

- É aquilo outra vez? - pergunto e ele concordou. Os anos do Veiga no Palmeiras não foram muito atrapalhados por lesões, mas as poucas que ele tinha era no joelho direito, foi tratado mas é bom nunca esquecer

- Tá de boa, eu consigo andar, até correr, só fiquei com medo de ficar pior.

- É, fez certo - sorrio de lado e me sento no banco do lado dele. É bom que pelo menos algum deles tenham esse noção.

Passo a mão na cabeça levemente e observo o campo, sentindo minha cabeça pipocar.

- Não devia ficar tão perto de mim... - Sussurra sorrindo e eu franzo o cenho - Tô afim de ainda ter minhas duas pernas

- Dhiovanna sabe que somos só amigos! - digo quase indignada com a fala sem sentindo.

- Não tô falando dela, Lívia. - Sorri de lado e olha para o outro banco, faço a mesma coisa e reviro os olhos com quem eu vejo olhando para nós dois com uma cara nada boa, mas desvia quando percebeu que eu olhei.

- Qual o problema dele?

Se ele já está assim, imagina se soubesse o que aconteceu no vestiário.

Meu trabalho está oficialmente em risco e ele está com essa cara como se o maior problema fosse com ele.

- O problema dele é que ele viu o menino entrar no vestiário atrás de você e não entendeu muito legal... - Dedura e eu franzo o cenho. - Além do fato dele estar tão irritado que eu não duvido que vai me matar só por estar perto de você.

Solto uma risada irônica, é Inacreditável de tantas maneiras que eu prefiro nem pensar.

- A gente não tem mais nada, e não é como se eu fosse ter algo logo com o Gabriel Menino.

- Ah, não sei...

- Eu prometi a mim mesma que a próxima vez me eu me envolvesse com alguém, a pessoa não ia nem saber o que é futebol.

- Então você está se envolvendo com alguém? - ele pergunta curioso e eu aperto os olhos. Ele sorri e se afasta, como se tivesse sido pego no flagra.

- Tá tentado descobrir coisas minhas para que?

- Curiosidade, só tô puxando papo... - Levanta as mãos.

Olho indignada e me levanto do banco, indo para perto do Abel.

Ele estava tentando descobrir coisas minhas para contar para o Richard, é sério?!

Ele não me deixa em paz, fica me olhando como um espírito sempre que estamos no mesmo lugar mas nunca se atreveu a vir trocar uma palavra, parece até que tem medo de mim!

Até parece, um homem daquele tamanho com medo de mim.

Eu queria esquecer esse cara, apagar da minha vida.

É possível, Jesus?

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