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Lívia Alencar

Fecho a porta atrás de mim e sinto vontade de sair correndo quando vejo a sala lotada. A presidência inteira.

Evito olhar para a ponta da mesa. A mulher que me chamou, me ajudou e provavelmente, vai me demitir.

Os homens me olham e antes que eu caminhe até a cadeira vaga, escuto a única voz feminina na sala.

- Podem me deixar sozinha com ela, por favor.

Leila diz e eu arregalo os olhos, engolindo em seco. Ela quer ficar sozinha comigo?!

Passo a mão no rosto discretamente, essa mulher vai me dar um tiro.

- Como é? - Um homem pergunta confuso.

- Só estou pedindo licença, por favor.

A elegância na voz me deixa de cara. Ela é quem manda aqui e esses caras ainda ficam aqui, sem o mínimo de respeito.

Bom, ela até que tem bastante, considerando tudo e mais um pouco.

- Precisamos decidir o que vai acontecer com ela. Essa mulher descumpriu uma das nossas regras mais graves.

Agora sim, fecho os olhos e sinto meu rosto arder em vergonha. É isso o que eu sinto nessa sala e ao olhar nos olhos de qualquer pessoa.

- Eu decido, me deem licença. - Ela diz mais firme e eu não deixo minha surpresa.

O homem que nunca foi muito com a minha cara, abaixa a cabeça e sai pisando fundo, assim como os outros.

Me deixam sozinha com Leila Pereira, que eu realmente não sei o que pensa de mim nesse momento.


A porta se fecha atrás de mim e eu caminho lentamente e puxo uma cadeira, me sentando. Em momento algum olhando para a mulher intimidadora na ponta da mesa.

Fito minhas mãos sentindo uma vergonha fora de mim.

Sinto vontade de me matar quando eu percebo que o puta discurso que eu fiz por dias na minha cabeça, simplesmente some.

Eu não me lembro de nada e não ia conseguir dizer aquelas palavras ensaiadas quando tenho esse bolo enorme no meio da garganta.

Respiro fundo e engulo em seco. Você fez e não se arrepende. Tenha coragem, Lívia.

- Olha, eu sinto mui... - Começo roendo minhas unhas com o dedo mas sou interrompida no mesmo segundo.

- Acha mesmo que eu descobri só agora? - Arregalo os olhos e sinto meu coração errar uma batida. Levanto meu olhar e vejo a mulher elegante com um sorrisinho brincando nos lábios. - Você me ofende duvidando da minha inteligência assim, Lívia.

Ela está de verde, como em grande parte dos dias. O cabelo loiro alinhado e eu só vejo a blusa daqui.

- Ah, droga... - Murmuro mechendo no cabelo em um ato de completo nervosismo. Eu não sei o que é pior, ela saber, ou não.  - Eu sinto muito mesmo, Leila.

- Sei que sente. - Ela sorri de lado e eu me sinto até meio confusa. Eu estava esperando ela me chamar de interesseira ou algo parecido com o que eu li na Internet.  - Não conta para ninguém, mas acho essa regra tão idiota quanto você, mas não cabe a mim mudá-la.

- O que quer dizer? - Pergunto a ela, ainda um pouco surpresa com o palavreado que eu nunca nem escutei ela dizer.

- Você não é a primeira a se envolver com meus jogadores, Lívia. - Levanto as sobrancelhas, mostrando a minha surpresa. - A nutricionista já se envolveu com o Edurdo...

- Dudu não é casado? - Leila levanta a sobrancelha e eu sorrio, entendendo. - Tem razão...

Me encosto na cadeira e acabo não sabendo o que pensar e nem como agir, mesmo ela sendo tão... gentil.

- Isso acontece desde sempre, Lívia. - Ela murmura e eu sinto meu coração palpitar. - Mas normalmente nunca passou de algumas vezes e a mídia nunca descobriu. Eu sabia, só me fazia de cega, não é como se eu não tivesse maiores preocupações.

Sorrio de lado, nunca imaginei que ela pensasse assim, mas é óbvio.

Afinal, se não afeta o rendimento de nenhum profissional, qual o problema disso?

Fecho minha expressão. Não é porque ela pensa assim, que não foi errado o que fizemos, o que eu fiz.

- Nós não devíamos ter ido tão...

- Não continue, Lívia. - Ela me interrompe. - Richard é um bom garoto. -  Arregalo os olhos e não contenho o meu sorriso. - É meio quieto, mas um bom homem. Eu confio nesse relacionamento.

Arregalo os olhos e me sinto envergonhada pela idiotice que eu ia dizer. É claro que devíamos ter ido longe, foi uma das melhores coisas que me aconteceu.

E escutar alguém dizer que confia no nosso relacionamento deixa o meu coração quente.

- Sinto muito por ter mentido para você. Eu não tinha escolha. - Digo realmente arrependida. Ela foi muito boa para mim e me ajudou desde o primeiro dia.

- Eu sei que não. - Ela sorri, quase doce.- Você é uma ótima profissional, sei que o seu relacionamento não afetou em nada no seu rendimento. - Sorrio de lado, mas ainda sinto que não vai ser tão fácil assim. - Mas é uma regra e além de tudo, foi exposto. Eu sinto muito, não tenho o que fazer.

Sinto meus olhos marejarem e mordo a bochecha por escutar algo que eu já tinha certeza. Mas não queria que acontecesse de jeito nenhum.

É surreal o quanto eu passei a amar esse trabalho e a rotina turbulenta. Meu coração é Flamengo, mas talvez um pedacinho dele...

- Está tudo bem, eu entendo...

- Acredite, eu não queria perder uma das melhores fisioterapeutas que eu já tive. - Sorrio de lado e limpo a lágrima solitária. - Mas vão precisar mais de você do que eu, agora.

- Como é?

Franzo o cenho e olho para ela confusa. Leila está sorrindo e eu me sinto ainda mais confusa, não deve ser o que eu estou pensando.

- Você pode ficar, Lívia.

- O que?! - Arregalo meus olhos e bato minha mão na mesa, me levantando em pulo só. - O que quer dizer.

- Se acalme, menina. - Ela se levanta e vem até mim, me deixando escutar os saltos batendo na madeira. Um contraste perfeito com meu tênis esportivo. - Você pode ficar.

- Aí, meu Deus...

- Eu só não sei se vai ser tão interessante para você.

- Como é?

- Sente-se, Lívia. - A olho confusa e ansiosa, obedeço. - Ainda temos muito o que conversar.

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