Lívia Alencar
Olho para a janela do carro escutando a música do rádio tocar, não aliviando um terço da minha tenção.
Na hora de ir embora ficou tudo tão estranho. Piquerez se ofereceu para levar Isabel e eu, tenho certeza que foi pedido dela.
Eu não aceitei, sei que ela não pretendia passar a noite em casa e só estava fazendo porque estava preucupada comigo, eu ia pegar um uber e pronto.
Aí, ele apareceu. Não agiu como se as coisas estivessem mil maravilhas, mas também não como se tivessem acabadas, foi o equilíbrio perfeito.
Diferente de agora, que estamos em um silêncio ensurdecedor.
É tão estranho, nós nunca ficamos assim. Sempre falamos tanta coisa, não importa a besteira que for
- Você... - Olho para ele e sinto meu coração acelerar algumas batidas, sem esperar o que ele queria dizer
Ele não completa, as mãos no volante estão tensas, percebo o momento em que ele passa a mão no cabelo nervoso.
- Eu? - Digo tentando parecer segura, mas a forma como a palavra soou mais como um murmuro acabou com isso.
- Gosta de trabalhar no Palmeiras? - Franzo o cenho.
Por que isso agora?
- Gosto... - Respondo com a testa franzida, realmente confusa com a pergunta repentina. - Gosto muito, na verdade.
Não é mentira. Nunca pensei que fosse gostar e me apegar tanto a essa rotina cansativa mas incrível.
É um dos melhores momentos da minha vida, e eu não digo só profissionalmente.
- Por que se arrisca tanto comigo? - Ele me olha e eu mal percebo quando chegamos na frente do meu prédio.
Ele pergunta como se realmente precisasse da resposta, como se fosse algo essencial naquele momento. O rosto tenso e a respiração levemente ofegante
- Por que isso agora, Richard?
- Me responde.
- Não, não vou te responder.
Não vou responder porque é uma resposta humilhante.
Sempre foi humilhante para mim admitir gostar de alguém, e eu gosto dele, gosto muito.
E esse é o principal motivo de eu me arriscar tanto.
- Lívia... - Murmura com as mãos na cabeça, quase como um lamento.
Abro a boca algumas vezes mas simplesmente não sai. Eu sinto uma vergonha fora de mim e depois de pensar tudo que aconteceu nesse noite, tenho a plena certeza de que é melhor não dizer.
Vi ele pela última vez e estava tudo perfeito. Ontem ele veio até o meu apartamento depois do jogo e nós comemos a comida de um restaurante ótimo do Rio, vimos filme e rimos.
Hoje, foi a mesma coisa. Até o começo da festa estava tudo ótimo, até...
- Foi a garota? - Murmuro, não é uma pergunta quando já se sabe a resposta.
Eu me encosto no banco do carro olhando para frente, incapaz de encarar os olhos.
Ele ficou com ela.
Eu não preciso de uma confirmação, a sua falta de resposta já diz muito, diz tudo.
Sinto um nó na minha garganta. Eu odeio me apegar demais, olha só o que acontece.
Foram meses e meses, juntos praticamente todos os dias, as palavras eram bonitas e as ações mais ainda.
Dentro de quatro paredes, óbvio. Acho que talvez esse tenha sido um dos motivos, ele odiava ficar escondido.
Deve ser por isso que não tentou esconder o que fez hoje.
O outro é que a menina era perfeita, eles tinham coisas em comum, muitas.
- Você é um merda, sabia?! - Explodo diante do seu silêncio. - Ao menos podia me dizer alguma coisa!
- O que quer que eu diga?! - Ele solta, ainda incapaz de olhar nos meus olhos. Solto uma risada nasalada.
Como é possível que alguém mude tanto em tão pouco tempo.
- Eu não entendo você. - Murmuro. - Você sabe o quanto eu me arrisquei por você, o quanto eu gostei do que a gente tinha. Aí, você acha alguém mais interessante e não pensa em mim por um instante sequer.
- Ela não é mais interessante do que você. - diz baixo, mas eu entendo. - Não existe a possibilidade de alguém ser mais interessante do que você, Lívia.
O olho desacreditada e vejo o exato momento que seu olhar vai até a lágrima na minha bochecha. Limpo rapidamente.
Como eu disse, humilhação.
- Mas é melhor a gente acabar com isso por aqui.
Fecho os olhos rapidamente, eu não entendo, não estendo mais nada.
- Foi longe demais. - Digo arrependida para mim mesma, mas ele também escutou e me olha outra vez.
Por um segundo vejo seus olhos brilharem, mas ele devia o olhar e pisca rapidamente.
Deve ter sido só a iluminação, com certeza.
- Nossa relação será profissional, podemos até tentar sermos colegas pelo clube, mas...
- É melhor que ela seja unicamente profissional. - Me interrompe e eu o olho, com os lábios tremendo levemente.
Como isso é possível, meu Deus?
Concordo com a cabeça e não digo nada, e muito menos o olho ao sair do carro de uma vez só.
Me sinto idiota com a vontade de chorar que eu sinto nesse momento.
Caminho até a entrada e só quando estou dentro do condomínio, escuto o carro cantar pneu.
- Boa noite. - O porteiro palmerense me olha, até com um pingo de preocupação.
- Boa noite. - Sorrio e só então percebo que minha voz saiu embreagada.
Sorrio para o homem e antes que ele diga alguma coisa, praticamente corro em direção ao meu prédio.
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Sobre Nós
Diversos"Proibição não apaga desejo, só o alimenta." ~~~~~~ Lívia Alencar é fisioterapeuta do Flamengo, apaixonada pelo clube desde criança e querida por todo o elenco rubro-negro. Quando recebe uma proposta quase irrecusável para trabalhar em São Paulo, no...
