Lívia Alencar
Entro no meu carro e sorrio levemente sentindo o couro macio, olho para o lado e vejo Dhiovanna me ligando, sorrio outra vez e atendo
- Está sumida, gata.
- Onde você está?
- Saindo do CT, por que?
- Nada, eu só te quero em casa, tá bom? - Franzo o cenho e até olho para o nome na tela para ver se é ela mesmo. - Dirige com cuidado.
Acho que o Veiga tá mudando a minha amiga. Ela nunca foi das mais preucupadas, é fofo
- Que gracinha...!
- Estou falando sério, Lívia.
Fico confusa e dou partida, enquanto me concentro em escolher uma música descente antes de dar partida.
- O que aconteceu, Dhio?
- Não é nada, só queria conversar. Agora larga esse celular e dirige.
- Tá bom, eu já estou indo.
- Eu te amo. - Ela diz e desliga, deixando uma mulher confusa dirigindo e com uma música de merda, já que não teve o menor tempo de escolher uma boa.
Que ótimo dia.
Me lembro da ligação de uns segundos atrás e sinto meu corpo se arrepiar. Ela está estranha e eu não vejo as duas desde ontem a noite.
E eu sequer falei com a Isabel hoje. Bom, mal falei com as duas.
Meu celular apita milhares de vezes e eu reviro os olhos. Não vou ver, sou uma motorista consciente. Uma motorista consciente não vê o celular enquanto dirige, é regra para quem não tá afim de morrer com vinte anos.
Sinto meu corpo tenso enquanto me lembro dos diversos acontecimentos dessa semana, além do fato do que o Richard deve estar fazendo nesse exato momento.
Eu me sinto egoísta por deixar ele fazer algo assim. Ele ama esse time e eu passei a amar o meu trabalho aqui.
É uma droga a gente não poder fazer o que amamos juntos.
Eu sei que o que eu fiz foi arriscado e imprudente, mas percebi que não trocaria momento nenhum.
Foi incrível, cada segundo. Acho que até as brigas eram divertidas com ele
Depois de uns longos minutos na merda do trânsito de São Paulo, eu chego na frente do meu...
Puta merda. O que é isso?
Não dá para entrar com o carro. Paro perto da esquina, desço, trancando e tentando entender o que é que está acontecendo.
Caminho até as milhares de pessoas na portaria e sinto meu coração apertar. É a imprensa.
Será que descobriram onde a Dhiovanna morava?! Isso é uma droga.
Mas, me assusto completamente quando uma repórter olha para mim e grita "ela está ali!"
Arregalo os olhos e só quando vejo aquele monte de repórter, eu percebo que estou completamente ferrada.
Eles sabem.
Me descobriram.
Todo mundo sabe.
Me afasto como posso e sinto uma vontade imensa de chorar, apenas torcendo para que Richard ao menos tenha tido tempo de falar.
- O que você tem a dizer sobre o seu relacionamento com Richard Ríos?
- Você ainda vai continuar no Palmeiras?
- Quando isso começou?!
- Agora vocês vão assumir o relacionamento?!
Sinto uma lágrima cair na minha bochecha e a minha expressão nesse momento deve ser de puro horror. Meu coração aperta e eu não consigo pensar em nada. Só sentir
Sentir a merda do desespero que aperta o meu peito, eu estou apavorada e me sinto uma criança que só quer o colo da mãe.
Puta merda, a minha mãe. O que a minha família vai pensar de mim quando ver que eu estava tendo um caso com um jogador.
O meu trabalho, a minha dignidade. Está tudo indo por água abaixo.
Apenas soltaram o ralo e estão assistindo a porra da água descendo lentamente.
- Sai de perto dela! - Escuto uma voz grossa e arregalo os olhos, me despertando do transe repentino (mais ainda) quando vejo Gabriel se colocando na minha frente. O que merda ele está fazendo aqui?
- Vocês não entenderam que é para sair?! - Dhiovanna diz da mesma forma quando chega ao meu lado, me assustando outra vez.
- Vocês são o que?! Parasitas, porra?! - Isabel grita enquanto a imprensa amassava seu corpo e não a deixava passar.
Ela grita irritada, como se não tivessem pegado ela em um bom dia. Isabel pega a câmera de um repórter qualquer, jogando no chão e quebrando com tudo. As câmeras viram para ela e sinto minha mão ser puxada no mesmo segundo em que não estão mais olhando para mim.
- Essa aí não é a que sai com o Piquerez?!
- É a ex do Gabigol. Vocês voltaram?!
- Você está com os dois ou algo assim? É algum tipo de trisal?
- Puta merda! - Escuto ela dizer irritada e praticamente pulo no carro, quando as portas estão abertas.
Coloco as mãos na cabeça sentindo a minha respiração ofegante, a maldita dor no pé da minha barriga e simplesmente começo a chorar.
Meu peito pula e eu só sinto o meu peito se apertar e o desespero me consumir por completo. Era o que eu mais temia e, ironicamente, a minha única certeza.
- Você precisa se acalmar, tudo bem? - Dhiovanna pega meu rosto entre as mãos e eu mal percebo quando o carro dá partida, com Isabel já dentro, no banco da frente.
Não sei como despistaram os paparazzis, o que diabos o Gabriel está fazendo aqui mas no momento, eu definitivamente não me importo, já que a dor que eu sinto é muito maior. A maldita dor.
Meu corpo se contorce e eu fecho meus olhos, é quase como se meu corpo expulsasse algo. Eu nunca senti algo parecido, nunca senti uma dor tão forte.
- Puta merda... - Escuto Gabriel dizer e o carro se virar em uma curva. - Faz alguma coisa, Dhiovanna!
Minha amiga, que parece acordar de um transe, não muito diferente do que eu estava há uns minutos atrás.
Meu corpo pula e eu percebo que Dhiovanna chora enquanto abre as minhas pernas levemente, como se soubesse o que estava errado e só precisava de uma certeza.
Bem diferente de mim, que não faço a menor ideia da merda que está acontecendo comigo.
Ela fecha os olhos e escuto ela gritar algo dizendo para o Gabriel ir para o hospital. No mesmo segundo em que eu abaixo meu olhar e vejo sangue no banco, tudo se apaga.
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Sobre Nós
De Todo"Proibição não apaga desejo, só o alimenta." ~~~~~~ Lívia Alencar é fisioterapeuta do Flamengo, apaixonada pelo clube desde criança e querida por todo o elenco rubro-negro. Quando recebe uma proposta quase irrecusável para trabalhar em São Paulo, no...
