19 - Dorcas

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O calor acabou, e a sensação do sol na minha pele faz falta. O laranja das folhas mortas, no chão ou prestes a cair, penduradas por pouco em suas árvores, não combinava com o meu humor. Tampouco combinava com como eu deveria me sentir: inspirada.

Nada no outono, ainda que em Paris, afaga, de qualquer forma, a melancolia da desistência. Sentei no mesmo lugar de sempre, pedi o mesmo café com canela de sempre, deixei o aroma preencher o ar que eu respirava, mas a xícara nem sequer foi tocada.

Respirei fundo, e o silêncio  que parecia um abismo me entornava. Todos sumiram: Evan e Bart por bons motivos, Regulus pelos mesmos que eu, e Marlene... bom, meu café com canela.

Paguei meu pedido inconsumado. Levantei-me e fui caminhar ao longo do rio, passando pelas pontes tão diferentes daquelas em Londres. Um discurso sobre arquitetura e um paralelo com Um Conto de Duas Cidades , que só Marlene entenderia, passou pela minha mente. Guardei-o com um sorriso triste.

Quando parti da Inglaterra, abracei pela última vez meus amigos no aeroporto, acenei para meus pais, e as portas se fechando atrás de mim foram palpáveis por serem quase literais.
Mas elas deveriam ser, porque histórias precisam de um fim, mesmo que não seja do jeito que gostaríamos. Tudo precisa acabar, de uma forma ou de outra.

O problema real, quando eu chegava ao final das minhas contas, era não ter encerrado as coisas como eu deveria — simplesmente fugindo da parte difícil. Todos os dias eu fazia esse mesmo caminho, esperando que o semestre letivo começasse logo e eu pudesse me distrair com outras coisas. Enquanto isso, esse auto-desgosto ocupava minha mente. Todos os dias eu me dizia que, ao chegar em casa, eu iria escrever para Marlene. Tentar me explicar, me desculpar, apenas falar alguma coisa.

Hoje pode ser esse dia. Subi as escadas do meu pequeno e antigo prédio, larguei o casaco com algumas gotas de garoa ao lado da entrada e fui direto ao notebook solto no sofá.

"Querida Marlene,"

Um minuto se passou.

"Desde que cheguei à França, venho pensando em você todos os dias. Não há uma escultura, um livro, árvore, prédio, comida ou qualquer coisa que não me faça lembrar da sua risada e opinião."

Sorri. Soava como uma boa forma de começar.

"Sei que, quando fui embora, eu sumi. Não te disse nada, não me despedi. Mas acho que eu tinha medo. Tudo foi muito rápido e espontâneo — eu não teria tido coragem de ir se fosse de outra forma.

Enfim, acho que quero dizer que tenho saudades, que, quando fui embora, foi com muita dor. E essa dor cresce todos os dias.

Gostaria de me arriscar mais ao falar dos meus sentimentos por você, Marlene McKinnon, mas não quero que se assuste.

Espero que você possa me perdoar. Espero que saiba que, se algum dia vier a Paris, sempre terá aqui um lugar aconchegante para você , assim como em meu coração."

Não estava bom. Não era bom. Mas era tudo o que eu tinha. E, se não fosse dessa forma, não seria de forma nenhuma.

O confortável de saber que algo não está bom é a pouca expectativa que se bota naquilo.

Ainda que... eu esperasse um pouco mais.
Não muito.
Mas pelo menos uma resposta.

As aulas começaram, os dias, as semanas, os meses se passaram — e ela nunca me respondeu.

Barty se queixava do curso de Direito todos os dias. Mandava mensagens pigarreando sobre como ele odiava tudo: os colegas de turma, os professores, as aulas, a comida, o deslocamento, as provas, até a água daquele lugar.
Evan levava o peso emocional do namorado consigo, mas, tirando isso, sua vida parecia ir bem — e isso me aliviava.
Já Regulus... ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo na vida dele. Só que, muito provavelmente, ele estava estudando na UCL. Algumas vezes o viam entrando ou saindo do carro preto de Kreacher pela região.

Ghosting; StarchaserOnde histórias criam vida. Descubra agora