16,5 - Documento sem título

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"Eu sempre me senti como um fantasma. Andando na antiga e luxuosa casa dos meus pais, vendo, lendo e escutando exemplos de quem e o que eu deveria ser.

     Eu sempre me senti como um fantasma. Sentado isolado no intervalo do colégio porque era algo que eu gostava, mesmo que preocupasse meus amigos.
Eu sempre me senti como um fantasma. No apartamento do meu irmão, passando pelos corredores do meu quarto aos outros cômodos como uma assombração.
Eu sempre me senti como um fantasma. Sempre escondido na sombra do meu irmão, menos visto – para o bem ou para o mal.
Eu sempre me senti como um fantasma. Sem coragem de me olhar no espelho e sentir que sei quem eu sou.
Eu sempre me senti como um fantasma. Porque quando olho ao redor, em qualquer lar que eu tenha chamado de meu, não vejo um pingo sequer de mim.
Eu sempre me senti como um fantasma. Não tenho como ver meu reflexo nas coisas, porque mesmo que eu visse eu não me reconheceria.
Eu sempre me senti como um fantasma. Até um maldito, grande, forte, carinhoso, supostamente inteligente, simpático e adorável James Potter entrar na minha vida.

     E por um breve momento, não fui mais um fantasma. Por um breve momento, me senti visto. Por um breve momento, acreditei que havia algo a ser visto em mim. Por um breve momento, vi algo nele que faltava em mim. Ainda falta.

     Mas deixei isso escapar, cair no chão, quebrar. Não que tenha sido culpa minha, não que tenha sido algo que eu quebrei – foi algo que senti, escutei, vi quebrando.

     Dentro de mim.

     Coisas quebram dentro de pessoas o tempo inteiro. E de repente, voltei a me sentir como um fantasma.

     Eu quase sempre me senti como um fantasma. Contudo, quem dizia me ver não conseguia entender.
Eu quase sempre me senti como um fantasma. Entretanto, em um passe de mágica minha existência se tornou condicional.
Eu quase sempre me senti como um fantasma. Todavia, preferiria jamais ter pensado que em algum momento deixei de ser um.
Eu quase sempre me senti como um fantasma. E nunca tive real vontade de que isso mudasse.
Eu quase sempre me senti como um fantasma. Infelizmente agora quero deixar de ser um.
Eu quase sempre me senti como um fantasma. Minha existência é tão condicional quanto uma vontade supérflua.

     Então, se eu quase sempre me senti como um fantasma, e decido que quero deixar de ser um – juntando com o fato de minha existência ser condicional a alguma vontade... Que esta vontade seja a minha. Que eu deixe de ser um fantasma."

"Sim, eu não sei do que estamos falando. Mas concordo, deveria ser. Só tenho duas perguntas, como você sabe o meu nome? E o que eu fiz de tão terrível?"



452 palavras

Ghosting; StarchaserOnde histórias criam vida. Descubra agora