20 - Regulus

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Não é justo que uma pessoa tenha que sentir tanta raiva advinda de tantos lugares de uma vez só.

Não é justo que essa pessoa seja eu.

Porque é lógico que não basta perder tudo, ainda que talvez eu não tivesse nada. Não basta perder uma possibilidade de vida livre, não basta perder meus amigos, meu namorado, meu irmão, e além de perder todos, receber uma linda carta e mensagens contantes que trazem todas a mesma maldita informação:

"Você não perdeu nada, Regulus, você desistiu de tudo."

O que é simplesmente absurdo, porque se eu tivesse de fato desistido de tudo eu não estaria sentindo nada.

Não estaria explodindo de raiva na cozinha, gritando com mãos e braços cortados pelos cacos de vidro que ricochetearam em mim enquanto eu quebrava toda louça que tinhamos. 

É lógico que se eu tivesse desistido de tudo, eu não estaria surtando psicoticamente todo santo dia.

Mas um convite para ser padrinho de casamento? Isso deveria ser uma piada de mal gosto. E só Deus sabe o autocontrole que tive pra não explodir quando Lily sussurrou "Você não precisa se preocupar, James não foi convidado".

Como isso deveria? Poderia melhorar qualquer coisa? O que infernos eu faria com essa informação além de remoer e remoer até chegar a mais óbvia das conclusões.

Olha só, talvez eu não tenha estragado só a minha vida. Talvez eu tenha estragado a de James e de Sírius também. 

A cozinheira tentava limpar meus ferimentos e tirar os pequenos cacos de vidro que prenderam em mim enquanto eu resmungava e me despejava sobre ela.

"Sabe, Amanda, não adianta de nada ser convidado para um evento o qual eu claramente não vou poder comparecer. E ainda querem me reconfortar dizendo que eu consegui lindamente separar o noivo do melhor amigo e quem sobrou para ficar de padrinho fui eu? Isso não faz o menor sentido, eu me sinto como um furacão ambulante as vezes." Bufei enquanto minha perna tremia compulsivamente.

"Depois do que o senhor fez na cozinha, precisa concordar com a parte do furacão."

"Sério, só isso que você tem a dizer sobre a situação?" Levantei as sobrancelhas e esperei por mais. "Nenhum conselho, nenhum comentário?"

Amanda suspirou.

"Senhor Black, eu não sou sua amiga, sou sua funcionária. Não espere que eu cumpra uma função que não me foi atribuída."

"Sim, é claro. Acabou então." Levantei, ainda que houvessem um ou dois machucados para tratar.

Decidi fazer o lógico, a partir disso.

Andar de um lado para o outro na casa como um animal enjaulado. Da cozinha para o porão, do porão para a copa, da copa para o jardim, do jardim para a sala de leitura, da sala de leitura para a sala de jantar, da sala de jantar para a sala de estar, da sala de estar para o hall de entrada, do hall para...

Não.

Na mesa de centro do hall um papel brilhante prendeu minha atenção. Peguei a carta com toda minha força, amassando um dos cantos. O endereço indicava que vinha da Suíça, senti o calor no meu rosto ao ver a logo do remetente. Centro para Terapia  Ocular de Basel, CTOB.

"Prezado Senhor e Senhora Black, 

Escrevo esta nota diretamente a Vossas Senhorias, bem como a seus filhos, com imensa alegria.Após meses de intenso trabalho, os novos laboratórios da Fundação Orion para a Visão, aqui no CTOB, estão finalmente prontos para acolher a primeira fase do nosso tratamento pioneiro contra a Retinose Pigmentar. 

Ghosting; StarchaserOnde histórias criam vida. Descubra agora