Véu e Silêncio

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— Então que seja com intenção limpa. Porque toda primeira magia tem alma de espelho.

As palavras de Morganna ainda pairavam no ar quando ela se voltou para uma das prateleiras da cabana. Tirou de lá uma pequena caixa de madeira escura, marcada com símbolos que eu não conhecia. Abriu-a devagar. Lá dentro, havia apenas um punhado de ervas secas e um fragmento de pedra azulada.

Ela pegou o conteúdo e colocou sobre a mesa. Depois, olhou para mim.

— O que vou te ensinar agora é o que qualquer bruxa deveria aprender antes de qualquer outra coisa: a ocultação.

Assenti em silêncio.

— Na Idade Média, o conhecimento mata. E a ignorância se vê como justiça.
Ela caminhou até o centro da sala.
— Uma bruxa não precisa ser vista para existir.
Fez uma pausa.
— E às vezes, não deve ser.

Eu a segui, segurando minha Athame junto ao peito, com as duas mãos. O cabo parecia mais quente a cada minuto.

Morganna então traçou um pequeno círculo no chão com o pó das ervas, misturado à poeira da pedra. O traço parecia vivo — como se o chão respirasse através dele.

— Esse feitiço não esconde o corpo — explicou. — Ele esconde a presença.
Olhou para mim.
— Só bruxas conseguirão te ver. Ou aqueles a quem você permitir.

Ela estendeu a mão, pedindo minha Athame.
Eu a entreguei. Morganna segurou a lâmina com um respeito silencioso, e a posicionou sobre o círculo traçado.

— Observe — disse ela.

Com um movimento lento, Morganna passou a lâmina sobre o traço, de leste a oeste, e murmurou algo em voz baixa. As palavras se perderam no ar, mas o efeito foi imediato: o pó se ergueu como névoa por um segundo, e depois... se dissipou.

— Agora é sua vez — disse, devolvendo-me a Athame. — Mas não repita o que eu disse.
Seu olhar ficou mais sério.
— Crie suas próprias palavras. A magia não é sobre repetir. É sobre sentir.

Me ajoelhei.

O coração batia alto demais, como se quisesse sair do peito.
Segurei a Athame com mais firmeza e fechei os olhos por um instante.

Invisível, se eu quiser.
Invisível... se eu precisar.

Tracei o círculo com a lâmina. A ponta não cortava o chão, mas tocava a poeira com firmeza. Em vez de repetir feitiços antigos, falei baixo. Só para mim. Só com o que fazia sentido.

— Que só me veja quem caminha entre véus.
— Que só me sinta quem conhece o silêncio.
— E que eu mesma seja invisível... até que minha alma diga "basta".

A névoa se ergueu — menos espessa, mas mais quente.
E então... sumiu.

Morganna permaneceu imóvel, me observando.
Depois caminhou lentamente ao meu redor, como se testasse a realidade à minha volta.

Quando seus olhos pararam nos meus, ergueu uma sobrancelha.

— Conseguiu.

Eu não sabia como ela tinha certeza.
Mas... eu também tinha.

Ela se sentou de novo na cadeira e soltou um leve suspiro, como se encerrasse algo importante.

— Agora o mundo vai te procurar e passar por você sem saber.
— Mas cuidado, Cateline. — Ela fez uma pausa. — Invisibilidade não é esquecimento. Nem impunidade.
— Você verá tudo. Mas isso também significa que sentirá tudo.

ATHAMEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora