A Flor e o Veneno

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Mais um dia particularmente diferente começava, e eu já estava completamente desperta e agitada.

Todas as manhãs, eu costumava me aventurar pela floresta em busca de plantas ou qualquer coisa desconhecida — e hoje não seria diferente.

Calcei meus sapatos de camurça, um presente caríssimo do Sir Eric. Ele visitava nossa casa com frequência. 

Era um amigo querido da família... e, fora minha irmã e meus pais, minha pessoa favorita.

Peguei meu casaco, minha bolsa de couro e me preparava para sair. Cruzei a casa na pontinha dos pés e encostei a porta da cozinha com cuidado, fazendo uma careta para o rangido agudo que ela soltou. Eu queria fazer o mínimo de barulho possível.

Inspirei fundo o ar puro daquela manhã úmida, sentindo os primeiros raios do sol tocarem meu rosto. Um sorriso leve brincava nos meus lábios... mas ele morreu no instante em que ouvi o som metálico de algo caindo dentro de casa. 

Corri de volta, alarmada, e encontrei Sofi sobre uma cadeira, esticando-se toda para alcançar um casaco no topo de um mancebo ao lado do armário de panelas.

— Sofia! O que você está fazendo? — sussurrei, tentando controlar o tom. Meu coração quase pulou do peito quando ela se desequilibrou um pouco, assustada por ter sido flagrada. Seus olhinhos me encararam, assustados, com o rosto já todo vermelho. Eu me segurei pra não rir.

— Eu ia atrás de você... — murmurou, com medo de que eu a mandasse de volta pra cama.

Respirei fundo, peguei-a no colo para ajudá-la a descer e puxei o casaco, colocando-o sobre seus ombros. Abaixei até ficar na altura dos olhos dela e sorri de lado.

— Quer explorar a floresta comigo hoje?

O brilho que acendeu nos olhos de Sofia me fez sorrir ainda mais.

— Sim! Sim! Sim, Cat!! — ela praticamente pulava de alegria.

— Shhhhhh... só não grita — avisei rindo, enquanto pegava sua mão e saíamos da casa.

Sofia estava ainda mais agitada e curiosa que o normal. Assim que pisamos na floresta, soltou minha mão e saiu correndo alguns passos à frente.

Eu pigarreei, tentando assumir minha voz mais séria — o melhor que uma garota de doze anos conseguiria fazer.

— Não corra, nem se afaste de mim, ok?

Ela assentiu rapidamente e começamos a explorar. A floresta sussurrava ao nosso redor — o canto dos pássaros, o farfalhar das folhas, o murmúrio do vento entre os troncos.

O cheiro de terra molhada fazia tudo parecer ainda mais vivo. Parávamos a cada novidade, e eu ouvia ao longe o barulho de uma queda d'água — sinal de que o riacho estava próximo. Tudo que me parecia incomum aos meus olhos, eu guardava com cuidado na bolsa.

— O que é isso, Cat?

Era a vigésima pergunta de Sofia, mas eu respondia todas com alegria. Ensinar o que a mamãe me ensinara era como manter o amor dela vivo em nós.

— Hmm, deixa eu ver... Olha só! Cogumelos. Esses fazem bem pro sangue. Estão em ótimo estado. Pode comer, se quiser — peguei um e comi demosntrando e oferecendo o restante a ela. 

Sofia, claro, colocou todos de uma vez na boca. Ri alto, mas logo fingi uma cara brava.

— Sofi! Isso não são modos!

— Me desculpe... — disse com a boca cheia, me fazendo rir ainda mais.

— Você não existe, Sofi. Vem, vamos andar mais um pouco antes de voltar.

A trilha nos levou a uma parte da floresta que eu não ia com frequência. O dia estava lindo demais pra recuar. Ouvíamos a queda d'água, agora mais próxima. E logo, a pequena cachoeira surgiu entre as árvores.

O sol já estava alto, e a floresta era embalada pelo canto de pássaros de diversas espécies. Pela segunda vez no dia, fechei os olhos e inspirei fundo. O cheiro de flores, terra úmida e frutos me acalmavam. 

Era revigorante.

Quando abri os olhos, vi Sofi ao meu lado, também de olhos fechados. Sorri e a cutuquei na testa, brincando:

— Hey princesinha... Cansou de explorar?

— Até parece! — ela respondeu, disparando em corrida.

— Não vá muito longe! — gritei.

— Tá bom! — respondeu entre as árvores.

Voltei minha atenção ao entorno... e foi então que algo chamou meu olhar. Um brilho diferente entre os arbustos. 

Acelerei o passo. Meu coração bateu mais forte — aquele tipo de excitação boa que só quem ama explorar conhece.

A pequena flor era... hipnotizante.

Era uma das coisas mais belas que eu já havia visto. Suas pétalas tinham uma forma pontiaguda e agressiva, quase intimidadora, mas não deixavam de ser encantadoras. Sua coloração? Um verde-azulado profundo, talvez até ilusório, moldado pela luz do sol filtrada pela copa das árvores.

Aquele tom era vivo. Único. Como se não pertencesse a este mundo.

Com muito cuidado, colhi apenas uma flor e a guardei. Mostraria à mamãe. Talvez ela soubesse seu nome... e seu poder.

— Sofi, hora de voltar! — chamei, minha voz ecoando entre os troncos.

— Tô aqui, Cat! — respondeu.

Segui sua voz até encontrá-la curvada sobre uma moita.

— O que está fazendo?

— Olha só quantas frutinhas, irmã! — disse, se virando com as mãos cheias. E então colocou uma bolinha na boca.

E foi como se o mundo parasse.

Vi sua garganta se mover — um engolir pequeno, silencioso. E, de repente, o tempo deixou de obedecer. Cada segundo se arrastava como se o mundo segurasse a respiração.

Beladona.

A pequena, bela e fatal fruta venenosa.

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