Dor e verdade

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O interior da mansão Savoy exalava perfume e poeira antiga.
Os corredores, largos demais, abafavam os sons do lado de fora como se o mundo tivesse ficado para trás.
Meu coração, no entanto, batia alto — como se quisesse fugir antes de mim.

Ingrid caminhava ao meu lado em silêncio. Seu vestido roçava o chão com a precisão de quem cresceu entre colunas e protocolos. O meu, embora ajustado, parecia estranho no corpo. Como usar a pele de outra pessoa.

O feitiço de ocultação ainda me envolvia, mas ali dentro, cercada por paredes que viram demais, ele parecia frágil.
Frágil como minha coragem.

Quando atravessamos as portas duplas da biblioteca, ele já estava lá.

O conde Dante Savoy.

De pé à frente da lareira, com as costas voltadas para nós. Os cabelos escuros começavam a pratear nas têmporas. As mãos cruzadas nas costas. A imagem de um homem digno.

Mas a dignidade dele estava enterrada junto às cinzas da minha casa.

A biblioteca era vasta, silenciosa, e carregava o cheiro de couro e cinzas antigas. Cada livro parecia uma testemunha que não diria palavra. As paredes, altas demais, abafavam até a culpa.

Ele virou-se devagar. Os olhos se fixaram em mim. E pararam.

Meu estômago se contraiu. As pernas ficaram leves, como se o chão sob meus pés já não fosse confiável.

— Cateline... — disse ele, com uma surpresa que me ofendeu.

O nome saiu da boca dele como um erro.

— Eu vim aqui por um motivo — murmurei. A voz saiu baixa, arrastada pelas bordas da raiva.
— Minha mãe devolveu a vida à sua filha. E o que você fez em troca?

A expressão dele vacilou. Deu um passo à frente, cauteloso, como se eu fosse feita de vidro.

— Eu... não... Eu fui chamado à corte... A denúncia não era sobre vocês. Era sobre mim.
Disseram que eu havia recorrido à magia negra para salvar minha filha.

Ao meu lado, Ingrid empalideceu. Não desviou os olhos dele.
Mas havia algo novo em seu silêncio. O maxilar trincado. A rigidez no pescoço.
Ela ouvia como quem coleciona decepções.

— Eu não sabia como agir — disse o conde. — Disse que havia sido enfeitiçado.
Ninguém sabia que eu fui até sua casa naquela noite. Achei que assim... protegeria minha família.

— Às custas da minha — gritei.

A dor apertava o centro do peito como um grito preso.
— Às custas da mulher que salvou sua filha.

Ele recuou como se minhas palavras tivessem peso físico.

— Eu não sabia que seria assim... — murmurou. — Nunca tinha ouvido o nome Ashdown até aquela noite.

Senti o mundo girar. Cada palavra dele era um estilhaço.
Estávamos frente a frente, e ele ainda falava como se fosse vítima da própria ignorância.

— E quem indicou minha mãe? — perguntei. — Quem levou você até ela?

Houve silêncio.

O conde desviou o olhar.

— Sir Eric Hans — confessou.

O nome fez minha pele arrepiar. Uma fisgada atravessou meu estômago.
Ingrid arregalou os olhos.

— Ele disse que ela era curandeira. A única capaz de salvar Ellyn.
E ele estava certo...

Ele passou as mãos pelo rosto, como se quisesse apagar o próprio rosto.

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