O silêncio tinha um som estranho.
Acordei com ele, como se me chamasse de volta à superfície depois de um mergulho profundo. A primeira coisa que senti foi o toque de um tecido macio demais contra a minha pele — e isso foi o que me assustou. Minha pele não estava acostumada com gentilezas.
Abri os olhos devagar.
O teto era branco como leite, ornamentado com delicados relevos dourados que se entrelaçavam como vinhas. À minha esquerda, uma janela alta deixava a luz entrar suavemente, filtrada por cortinas finas que dançavam com o vento. O quarto era amplo, feminino... e riquíssimo. Uma penteadeira esculpida, poltronas de veludo, um tapete espesso cobrindo o chão.
Eu já tinha estado em uma mansão. A da família Savoy. Mas este quarto não ficava muito atrás — talvez um pouco menor, mas... mais íntimo. Mais feito para alguém como eu. Como se alguém soubesse exatamente meu tamanho, meu gosto. Como se eu já morasse ali.
Meu estômago se revirou.
Baixei o olhar e só então percebi: estava com uma camisola. De cetim. Limpa, perfumada, nova. O tecido era tão leve que parecia flutuar. E caía perfeitamente em mim. Perfeitamente.
Como...?
Sentei-me devagar, os músculos doloridos se manifestando em cada movimento. As lembranças vieram como um corte: a parede áspera, as mãos, o grito preso. A humilhação. A dor. O beco.
A escuridão.
Quem...?
Quem me trouxe até aqui?
Quem me vestiu?
Quem encostou em mim quando eu não podia lutar?
Passei as mãos pelo próprio corpo como quem tenta apagar pegadas. A sensação da pele limpa era quase ofensiva. Como se tivessem tentado apagar o que me aconteceu com água quente e sabão caro.
Por um instante, desejei que tivesse sido a Deusa. Que tivesse sido ela quem me ergueu do chão e me deitou em lençóis macios. Que tivesse me banhado com mãos divinas e olhos fechados.
Mas não foi.
Algo estava errado.
Tudo estava lindo. Limpo. Luxuoso.
E ainda assim, parecia que eu estava deitada sobre cacos invisíveis.
O som leve da porta se abrindo me arrancou do torpor.
Virei o rosto a tempo de ver uma mulher entrar. Ela era alta, de pele escura e olhos cansados. Usava um vestido simples, gasto pelo tempo e trabalho, e tinha um lenço escuro cobrindo os cabelos. Nos braços, trazia uma bandeja de prata antiga com um bule fumegante, um pequeno pão escuro e algo que parecia compota de maçã.
Parou ao me ver acordada.
Seus olhos se encontraram com os meus, e o que vi neles não foi surpresa — foi uma mistura incômoda de... cuidado? Compaixão?
Talvez pena.
Ou algo que ainda não sei nomear.
Ela ficou ali por um segundo a mais do que deveria, como se quisesse dizer algo — ou como se soubesse demais. Mas quando abriu a boca, sua voz saiu treinada e contida.
— Que bom que acordou, madame. Vou avisar ao senhor.
"Madame."
A palavra bateu seca no fundo da garganta. Olhei para minhas próprias mãos, para a camisola fina que usava, para a cama que não era minha.
Ela saiu sem esperar resposta.
E então o silêncio voltou — denso, abafado, cheio de perguntas.
Senhor quem?
VOCÊ ESTÁ LENDO
ATHAME
RomanceInglaterra, 1633. Em meio à floresta, onde as raízes sussurram e a noite parece eterna, vive Cateline Ashdown - uma jovem curiosa, marcada pelo mundo e moldada por forças que ninguém ousa compreender. Em um tempo de perseguições, onde o saber é puni...
