A Sombra que se Move

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O som veio antes da luz.

Vozes femininas, suaves demais para serem ameaça..., mas presentes o suficiente para me tirar do torpor.

Abri os olhos devagar.

Ainda era cedo. A luz mal atravessava as cortinas grossas, mas algo na tonalidade da manhã era diferente — mais limpa, mais viva.

As vozes vinham de fora.

Sentei-me, em silêncio. Descalça, caminhei até a janela, afastando apenas o necessário da cortina para ver sem ser vista.

Lá embaixo, no jardim, duas figuras caminhavam lado a lado por entre os arbustos em flor.
Uma delas era Ingrid — reconheci de imediato pela postura e pelos cabelos escuros que se curvavam nos ombros. Ela gesticulava com calma, como quem explica algo importante.

A outra... A outra fez meu coração hesitar.

Uma jovem de postura impecável, de vestido claro, cabelos negros e lisos que caiam como uma cascata sobre as costas. Seu andar era leve, mas firme. O rosto, de traços finos e elegantes, permanecia parcialmente virado — mas mesmo assim, algo nela me inquietou.

Ela era familiar. Mas não de forma clara. Era como lembrar o cheiro de um sonho.

A garota riu de algo que Ingrid disse. O som foi baixo, mas cristalino.

Por um instante, virou o rosto na direção da janela onde eu estava — e meus dedos apertaram o tecido da cortina, por puro reflexo.

Ela não me viu.

Mas meus olhos a fixaram com uma intensidade que beirava o absurdo.

De onde eu te conheço?

A pergunta reverberou dentro de mim como uma batida sem resposta.

Ela não parecia pertencer a esse lugar.
Ou talvez... eu é que não pertencesse mais.

Fiquei ali, imóvel, enquanto as duas seguiam até a fonte do jardim. A escultura da mulher de mármore agora parecia ainda mais viva.

E eu... não sabia dizer se estava escondida ou capturada.

As duas figuras haviam desaparecido. Depois de um tempo bati suavemente na moldura da janela antes de soltar o tecido da cortina.

Voltei para o centro do quarto e estava prestes a me sentar quando ouvi a batida leve na porta.

— Posso? — perguntou Ingrid do outro lado.

— Sim — respondi, antes de lembrar que talvez ainda estivesse sob o feitiço de ocultação.

Mas ela entrou sem hesitar.

Carregava uma bandeja com pão fresco, uma jarra de água e uma pequena tigela com frutas cortadas.

— Não sabia do que gostava, então... trouxe o que costumo tomar — disse, colocando a bandeja sobre a mesa ao lado da cama.

— Está ótimo — murmurei.

Ela parecia confortável no silêncio. Respeitava meus espaços com uma naturalidade estranha.

Ou talvez apenas tivesse aprendido a sobreviver entre muros que guardam mais do que acolhem.

— Precisa de algo? — perguntou, depois de alguns segundos. — Posso trazer livros. Ou aquecer a lareira.

Hesitei.

— Quem era... a moça no jardim?

Ingrid parou por um instante. O olhar ficou suave e animado.

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