O céu ainda era uma massa escura, costurada por nuvens pesadas e um ou dois pontos tímidos de luz.
O mundo dormia, mas meu corpo ardia em alerta — cada passo que eu dava era um nó a mais no estômago.A floresta parecia mais viva do que o normal.
Não pelos sons — mas pela ausência deles.
A trilha diante de mim, que tantas vezes se perdia na escuridão, hoje parecia mais clara. Vagalumes, muitos, formavam pequenas curvas luminosas entre as folhas molhadas, sempre alguns metros à frente.
Não era comum vê-los àquela hora.
Mas não pensei nisso.
Só segui.
Meus pés sabiam o caminho, mesmo que minhas mãos tremessem.
Ao chegar à clareira próxima ao vilarejo, respirei fundo. Havia uma trilha de pedras que levava aos fundos da prisão.
Eu não podia ser pega de novo. Não agora.
Lembrava da mão áspera que me agarrou por trás. Da pele sendo rasgada pelas pedras da parede. Do pânico. Da dor.
Agora eu estava atenta, cada sombra era um inimigo possível.
Cada estalo entre os galhos me fazia apertar os punhos.
Já conseguia ver a prisão.
E à frente dela: um guarda.
Bastava ele olhar para o lado certo, e tudo estaria perdido.
Imediatamente meus músculos travaram. Minhas mãos suavam. Mas antes que eu pudesse decidir o que fazer, ou bolar um plano...
Um som rasgou o silêncio — um rosnado curto, agudo. De dentro da escuridão, um gato preto como a própria noite saltou como uma flecha viva. Não era um salto comum. Era um ataque.
O animal se lançou sobre o soldado com uma precisão brutal, cravando as garras no rosto dele, subindo por seu peito como se fosse feito de sombras e lâminas.
O homem gritou, cambaleou, tentou agarrá-lo — mas o gato mordia, arranhava, urrava.
— Aaaah!! Sai! Maldito! — berrou o guarda, agora cego de raiva e dor.
Ele caiu de joelhos, derrubando a tocha que carregava.
O fogo se espalhou em faíscas pelo chão úmido mas o felino não recuou.
Só quando o homem ergueu um pedaço de madeira e tentou golpeá-lo com força foi que o gato recuou com um silvo cortante e sumiu dentro da noite.
O guarda, mancando, sangrando, com o rosto coberto de arranhões, grunhiu algo ininteligível e saiu em outra direção — xingando, tropeçando.
Eu não entendia o que acabara de ver, mas a oportunidade surgiu e eu não podia perder tempo.
Corri.
E ali, por um segundo apenas... me pareceu que a noite estava de vigiando.
(...)
O portão dos fundos rangeu quando empurrei com cuidado. A ferrugem pareceu gritar. Fechei os olhos por um instante, esperando que ninguém tivesse ouvido.
Nada.
Só o silêncio denso que se arrastava por aquelas pedras.
A prisão era úmida, escura.
O cheiro foi o primeiro golpe.
Sangue. Mofo. Fezes. Urina envelhecida.
Uma mistura de desespero e doença, tão espessa que parecia escorrer das paredes.
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ATHAME
RomanceInglaterra, 1633. Em meio à floresta, onde as raízes sussurram e a noite parece eterna, vive Cateline Ashdown - uma jovem curiosa, marcada pelo mundo e moldada por forças que ninguém ousa compreender. Em um tempo de perseguições, onde o saber é puni...
