O Retorno

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Apesar das palavras do Sir Eric, havia algo particularmente inquietante naquele quarto. Tudo era claro demais, limpo demais. Branco como leite, com dourados trançados no teto como vinhas. 

Quente, macio, e ainda assim... errado.

A luz filtrada pelas cortinas dançava no ar como poeira encantada. Sobre a penteadeira, repousavam uma escova de prata, perfumes florais e livros de capa dura — todos em línguas que eu nunca lera. Havia um vestido dobrado com perfeição aos pés da cama, como se esperassem que eu o vestisse. Como se alguém tivesse escolhido por mim.

No caderno sobre a escrivaninha, vi meu nome escrito à mão: Cateline Hans.

Engoli em seco.

Meu nome nunca fora esse, sou Cateline Ashdown.

Os criados entravam e saiam como sombras. Não me olhavam nos olhos. E quando perguntei sobre minha mãe, sobre Sofia, sobre qualquer coisa, recebi apenas sorrisos vazios. Educados. Programados.

Uma camareira me chamou de Senhora Hans.
Corrigi imediatamente. Ela tremeu, baixou os olhos, e saiu como se tivesse cometido um crime.

A mansão era bela. Rica. Cuidada com um esmero assustador. Mas havia uma sujeira invisível impregnada ali — nos olhos que me vigiavam, nas janelas que nunca escureciam completamente, no espelho que parecia devolver uma imagem que não era minha.

E foi nele que eu a vi.

Atrás de mim.

Rápida como um sopro.

Uma mulher encapuzada, os olhos como brasas.

Me virei num sobressalto.

Nada.

Mas o sussurro ficou.

Volte.

Esperei a madrugada. Fingi dormir.

Assim que o som dos passos no corredor cessou. Me levantei e vasculhei a penteadeira até encontrar um alfinete com cabo de ônix. A janela não estava trancada. Isso, por si só, me pareceu um teste — ou uma armadilha. Rasguei o vestido até os joelhos. O tecido fino se desfez como seda molhada.

Desci pela lateral da mansão. O frio cortou meus braços e pés. Os galhos arranharam minha pele. Mas eu continuei.

Não porque sabia para onde ir. Mas porque precisava sair dali.

Cada passo em direção à floresta era como respirar pela primeira vez depois de submersa.

Não sei como cheguei à clareira.

A lamparina na porta da cabana estava acesa, como se nunca tivesse se apagado.

E lá estava ela. Morganna.

De pé. Os braços cruzados. A expressão grave, mas os olhos... Havia algo neles.

Algo que fez meu peito doer e aquecer ao mesmo tempo.

Ela descruzou os braços e estendeu um deles para mim.

— Demorou mais do que imaginei pequena Atena. — Sua voz soou firme, sem espanto.

Fiquei parada por um tempo, o corpo inteiro pulsava com o frio e a fuga.

Depois andei.

Não pensei. Simplesmente fui.

Quando seus braços me envolveram, algo em mim quebrou. Ou talvez se encaixasse de novo — como uma vértebra recolocada no lugar certo.

Foi assim que minha mãe me abraçou pela última vez, pensei. Antes de tudo ruir. Antes do fogo.

ATHAMEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora