A Deusa e o Chamado

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Escuridão.

Frio.

Pequena criança... — uma voz sussurrou perto do meu ouvido. — Abra seus olhos.

Forcei as pálpebras até conseguir enxergar. Aos poucos, a luz revelou um jardim vasto, tão imenso que não dava para ver onde terminava. Eu estava no colo de alguém. Braços me envolviam com carinho e delicadeza.

Olhei ao redor, confusa. Onde eu estava? Como tinha chegado ali?

Girei levemente o corpo e a vi.

Cateline, você tem um futuro poderoso pela frente... mas lembre-se: coisas ruins precisam acontecer para que seu verdadeiro poder aflore.

Ela falava com a mente, não com a boca. Mas eu sabia que era ela.

Linda.
Absurdamente linda.

Seus cabelos escuros desciam em ondas sobre os ombros. Vestia uma túnica branca, incomum para uma mulher — pensei. Sua pele era branca, quase translúcida, e me deu uma vontade incontrolável de tocar.

— Quem é você? — sussurrei, encostando a ponta dos dedos em seu rosto. Seus olhos escuros pareciam conter chamas azuis em miniatura. Eram hipnotizantes.

Mesmo sem mover os lábios, sua voz surgiu com um tom suave e animado:

Me chame de A Deusa.

Eu olhava para sua boca — que não se movia — e mesmo assim a escutava. Era surreal.
Ela sorriu de leve. Automaticamente, sorri de volta.

Seu rosto se aproximou.
Fiquei paralisada.
Seu olhar mergulhou no meu.

E então... seus lábios tocaram os meus.

Escuridão.

(...)

Abri os olhos de repente.

— Mas... como...? — levantei rápido, um pouco zonza. Recolhi os papéis de mama com as mãos trêmulas.

Estava novamente em frente de casa.

Não me lembrava de ter voltado.

Respiração ofegante, olhei em volta. Nada. Nenhuma presença. Nenhuma explicação.

Depois de alguns minutos, quando um vento gelado soprou contra minha pele e me arrepiou inteira, decidi entrar.

A cozinha estava silenciosa e vazia.

Caminhei até o quarto. Papa estava sentado ao fundo, lendo. Vi mama colocando Sofia para dormir. Ela cantarolava baixinho uma canção em espanhol.

Aproximei-me devagar e toquei seu ombro. Ela interrompeu o canto e olhou pra mim.

— Você demorou lá fora... conseguiu ler muito? — perguntou.

Eu perdi a fala por um instante. Apenas assenti com a cabeça.

Ela voltou-se para Sofia, que já dormia como um anjo. Puxou uma manta de pele sobre sua filha menor e depositou um beijo no topo da cabeça dela.

Mas eu...
Eu só conseguia pensar naquela mulher.
Naquela que me beijou.

De repente, o som de relinchos nos fez congelar.

Cavalos àquela hora? Só podia significar uma coisa: pacientes desesperados.

Papa correu para a cozinha, seguido por mama — e eu logo atrás.

Dante? — a voz grave do meu pai ecoou ao abrir a porta, revelando um homem elegante. Suas roupas finas denunciavam proximidade com a corte. Uma capa azul escura cobria seus ombros, e um chapéu estava em suas mãos.

— Perdão por vir a essa hora, mas estou desesperado... — seus olhos estavam vermelhos, cansados e aflitos. Mas ele próprio parecia ileso.

— Você não devia estar aqui — disse meu pai com rigidez.

— Izaiah, deixe-o se explicar — interveio mama, puxando uma cadeira. — Sente-se...

— Não posso sentar. Preciso que salve minha filha.

Sua voz trêmula me apertou o peito. Ele parecia à beira do colapso.

— O que houve com ela? — mama perguntou, aproximando-se.

— Quatro dias atrás, ela saiu a cavalo com um criado. Um dos cães a atacou e mordeu sua perna... eu cuidei, eu juro. Mas agora... — ele tremia — ela está em febre há dois dias. Nenhum médico está por perto. Sir Eric me disse que você é a única chance. Por favor... venha à minha casa. — e caiu de joelhos diante dela.

Eu observava tudo, imóvel.

Mama hesitou. A situação era perigosa. O homem era nobre. E desesperado.

Então... ele olhou para mim.

— Ela só tem treze anos... — disse, fixando os olhos nos meus.

Naquele instante, percebi: minha mãe já tinha tomado sua decisão.

— Ase, você não deve sair — disse meu pai, tentando conter o ímpeto dela.

— Eu vou. — respondeu firme. — Mas não posso prometer salvá-la. Não tenho poderes mágicos.

Dirigiu-se à sua prateleira de cerâmica, pegando ervas e ungüentos. Eu corri até ela.

Mama... deixa eu ir com você? — pedi, baixo.

Ela hesitou. E eu insisti:

— Por favor, eu posso te ajudar com a água, com os panos... Eu quero aprender com você. Você sabe que sou útil.

Ela suspirou.

— Você não vai me ajudar em nada.

Já ia protestar, mas ela completou:

Vai apenas observar.

Quase pulei de alegria. Mas me contive, ao ver o desespero nos olhos do Conde Dante.

A filha dele podia estar morrendo.

E eu...
eu ia ver minha mãe em ação.

ATHAMEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora