Treze anos e dois dias.
Foi há treze anos e dois dias que mama me trouxe ao mundo — bem aqui, no quintal da nossa casa, na horta, sozinha, com as mãos sujas de terra e o corpo ainda carregando a força de mil mulheres antes dela.
Hoje eu estava no mesmo lugar onde nasci. Plantando. Como ela me ensinou.
Mama cultivava de tudo, e deixava que eu também plantasse o que quisesse. Rosas, lírios, maria-sem-vergonha... Dois girassóis imensos que viravam com o sol como se tivessem alma.
Mas agora, eu estava ajoelhada no chão, terminando de enterrar a muda da flor mais perigosa do nosso jardim. A Flor de Ellena. Distante das outras. Solitária, como ela parecia querer ser.
— Espero que você não morra só porque te mudei de lugar — murmurei para a planta. — Eu vou cuidar de você, certo?
— Cateline, vem comer antes que esfrie! — a voz de mama ecoou do interior da casa.
Levantei com preguiça, limpando as mãos na calça de linho surrada. Roupas masculinas. As que eu mais gostava. Mais livres. Não suportava vestidos, chá da tarde, sorrisos falsos, nem essas regras delicadas que a sociedade achava que eu deveria seguir. Aqui em casa, eu podia ser o que quisesse — e eu era terra, vento e planta.
Fui até a bica d'água, lavei as mãos e aspirei fundo o cheiro vindo da cozinha. O estômago roncou. Sorri com o pensamento de ter que dar a volta em toda a casa só pra comer. Minha vida não era fácil. Mas era minha.
Então o som veio. Baixo. Pesado.
Cavalos. Muitos.
Congelei.
Me esgueirei entre os arbustos, como mama me ensinou quando ouvíamos ruídos estranhos à noite.
E então vi.
Homens. Nobres. Armados. Um deles com uma capa azul-escura. Outro, com vestes negras da igreja e um crucifixo enorme pendendo da mão. Os pelos do meu braço se arrepiaram antes mesmo de ouvir as palavras.
— Vocês foram denunciados por práticas de bruxaria. Estão presos e serão julgados segundo o Malleus Maleficarum.
Meu corpo travou. Cada sílaba daquela sentença era uma lâmina entrando em mim.
Vi quando eles invadiram minha casa.
Vi quando dois soldados arrastaram minha mãe para fora, e quando outros dois tentaram conter papa, que se debatia como um touro ferido. Vi a confusão nos olhos dela — mama me procurava. Ela sabia que eu estava por perto. Esperava que eu fugisse.
Mas eu não me mexia.
Não conseguia.
O medo me paralisou.
Uma lágrima grossa desceu por minha bochecha, mas eu nem a senti. Vi um dos soldados golpear meu pai. O som seco do impacto fez minha alma estremecer. Ele caiu, desmaiado.
— Vamos. Esse lugar me dá arrepios. — disse um homem, montando no cavalo.
— Não ainda... — respondeu o inquisidor.
Ele vasculhou os arredores com os olhos. Meu coração parou.
— A denúncia foi feita contra pai, mãe e filha. Temos dois. Falta a terceira.
Vasculhem a casa.
Meu sangue virou gelo.
Eles iam me procurar.
Eles iam me pegar.
Eles iam me queimar viva.
Ouvi passos correndo, portas batendo, vozes altas. Ouvi Sofia chorando. Ela dormia depois do café, sempre. E eu sempre a acordava pro almoço. Hoje, não deu tempo.
— Queimem a casa.
Fechei os olhos com força.
Esperei o mundo acabar.
Esperei sentir mãos frias no meu tornozelo.
Mas elas não vieram.
O tempo passou.
O cheiro de fumaça se espalhou.
Tudo virou fogo, e ainda assim eu fiquei imóvel.
Até ouvir uma voz atrás de mim.
— Aí está você!
Um braço me puxou. Gritei. Me debati como um animal acuado.
— Calma! Eu quero te ajudar!
A voz...
Eu conhecia aquela voz.
Mas minha mente não conseguia alcançar nada além do desespero.
Então ele me abraçou. Forte. Como quem protege algo que ainda não sabe o valor.
E eu... quebrei.
Chorei.
Chorei até a dor sair pelos olhos, pelos poros, pela boca.
O calor do fogo atrás de mim misturava-se ao frio que se instalava no meu peito.
— Eu quero te ajudar... — repetiu ele.
Abri os olhos.
Azul.
Capa azul.
Tecido azul-escuro.
Meu corpo se afastou como se queimasse.
Porque queimava.
— Eu preciso que me perdoe. Eu fiz isso pela minha filha.
Dei um passo pra trás. Depois outro.
— Conde Savoy... — minha voz soou baixa. Mas carregada.
Mais do que isso: letal.
— Foi você.
Não era uma pergunta.
Era uma sentença de morte.
Algo despertou dentro de mim. Algo que não fazia parte de mim até agora.
Era quente. Ácido. Cortante.
Era ódio.
— Você não entende... — ele tentou.
Eu ri.
Eu gargalhei.
Alta. Louca. Destruída.
— Eu juro por todas as bruxas deste mundo... por todas que já existiram, e pelas que ainda vão nascer...
Ele deu um passo atrás.
— Eu vou fazer você pagar.
EU JURO!
— Cateline...
— Se você não sair da minha frente agora, eu vou te envenenar.
E você sabe que eu posso.
Ele recuou.
E fugiu.
Como o covarde que sempre foi.
Eu fiquei.
Fiquei ajoelhada no chão.
Tremendo.
Respirando fumaça.
Minha casa queimava.
Minha mãe havia sido levada.
Meu pai também.
Sofia... Sofia gritou pela última vez.
E então tudo silenciou.
Ali, sozinha...
eu morri.
E uma outra coisa nasceu no meu lugar.
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ATHAME
RomanceInglaterra, 1633. Em meio à floresta, onde as raízes sussurram e a noite parece eterna, vive Cateline Ashdown - uma jovem curiosa, marcada pelo mundo e moldada por forças que ninguém ousa compreender. Em um tempo de perseguições, onde o saber é puni...
