Outro dia.
Mas aquele dia amanheceu estranho. Eu me sentia vazia, lenta, como se algo pesasse dentro do peito. Não queria levantar da cama, muito menos caminhar até a cachoeira.
Ouvi barulhos na cozinha e tive certeza de que era a última a se levantar. Forcei meu corpo a sentar e respirei fundo. Por alguma razão inexplicável, eu estava profundamente irritada.
Caminhei com passos arrastados até a cozinha e fui direto ao pouco que restava do bolo de banana.
— Está doente, meu amor? — ouvi a voz da minha mãe atrás de mim.
— Por quê? — respondi seca, sem me virar.
— Você sempre é a primeira a acordar. Tem algo te incomodando? — mama passou a mão pelos meus cabelos, e então me virei para encará-la.
— Não, mama... Eu só... não sei. Vou sair mais tarde. — disse, já me afastando, quando percebi a ausência de duas presenças familiares. — Cadê Sofia e o papa?
— Sofia quis ir com ele à cidade. Seu pai foi trocar algumas peles por sementes e ervas da China...
Assenti de leve e voltei para o quarto. Não percebi em que momento adormeci novamente. Só me lembro de ser acordada horas depois por Sofi pulando sobre mim, me chamando para o almoço.
Nossa mesa não era grande, mas confortável o suficiente para nós quatro. Me sentei ainda com a alma distante.
— Cat não saiu hoje? — perguntou papai, me analisando com cuidado, com um pedaço de carne entre os dentes.
— Eu não quis. — murmurei, pegando um pedaço de pão de centeio.
— Ela está meio desanimadinha desde cedo — completou mama. Papai coçou o queixo, pensativo.
— Nossa menina já está passando por aquelas fases...? — ele comentou, olhando para mama, que soltou uma risada.
— Izaiah, por favor, ela só tem 12 anos — disse ela, tentando não rir mais.
— Quase 13 — ele rebateu, mastigando mais um pedaço.
— Mesmo assim, as regras dela ainda não começaram — continuaram, conversando como se eu não estivesse ali. Continuei em silêncio, beliscando o pão com uma irritação crescente.
— Mama, posso sair? — perguntei, já me levantando da mesa.
— Irmã, posso ir com você? — pediu Sofia, com os olhos brilhando de expectativa.
— Não. — minha resposta foi seca. Sofi se encolheu na cadeira.
Qual era o meu problema hoje?
— Sofi, hoje você ajuda a mama na horta. Cat, pode ir. Mas não demore. O tempo hoje não está confiável — avisou mama.
Eu sabia. Sentia no ar. O dia não estava normal. Eu não estava normal. Havia algo se movendo no vento. Algo diferente.
Sacudi a cabeça para afastar os pensamentos ruins e adentrei a floresta.
(...)
Caminhava devagar, sem foco, apenas repetindo a trilha até a cachoeira. Queria buscar a muda da Rosa de Ellena e voltar logo pra casa.
Foi então que ouvi.
"Grande Mãe, criadora de tudo o que existe, mostre-nos o seu poder."
Vozes femininas. Claras. Harmoniosas. E próximas.
Meu corpo reagiu antes da razão. Me escondi atrás de uma árvore grossa, o coração disparado.
Sou curiosa por natureza — e tola o suficiente para seguir o som.
Aproximei-me. Com cuidado. Cada passo me levava mais fundo no desconhecido.
— É o primeiro solstício do ano... Quantos anos tem sua protegida mesmo?
— Quinze Mirabel — respondeu com um leve sorriso. — Ela já sente o chamado da floresta e começa a entender o que carrega.
— Eu confio no seu instinto, Thalia — disse a outra, de olhos felinos e voz musical. — Podemos usar a lua cheia para a iniciação de Ingrid. Será uma noite memorável.
— E como pretende trazê-la?
— Tenho acesso livre. Sou amiga da familia há anos. Ela virá até mim. E então, até nós.
— Acha que consegue fazer o ritual sozinha?
— Eu ia perguntar isso... Mas...
— Silêncio.
O ar pareceu parar. As folhas pararam de dançar. As cigarras emudeceram.
Elas sentiram. Alguma coisa. Alguém.
Meus pulmões prenderam o ar por instinto. Ainda assim, eu podia ver as duas figuras com clareza entre as árvores. Elas usavam tecidos fluidos como sombras costuradas. Seus adornos eram formados por penas, dentes e pedras.
A mais alta, de postura elegante, tinha olhos intensos e sorriso inquietante. A outra tinha traços tão simétricos que pareciam impossíveis — bela de um jeito quase sobrenatural.
— Pequena Atena... pode sair. — disse a mulher mais baixa, a voz suave como uma brisa e fria como gelo.
— Sentimos sua energia. Não tenha medo, criança da floresta. — completou a outra, com um brilho nos olhos que me atravessou.
Elas sabiam meu nome.
Meus pés se moveram. Lentamente, me afastei da árvore. Estava vulnerável, visível. Mas elas apenas me observavam com um tipo de admiração que eu não sabia como processar.
— O que são vocês...? — perguntei, minha voz saindo em um sussurro rasgado pelo medo.
A mulher mais alta se aproximou. Abaixou-se até nivelar nossos rostos. Seu perfume era feito de névoa e flor envenenada.
— O que você acha que somos?
Olhei fixamente para os olhos dela — e, por um instante, vi-os tingirem-se de vermelho sangue. Dei um passo para trás, o coração martelando.
— Bruxas... Vocês são bruxas... — sussurrei.
Elas sorriram. Não com escárnio. Com algo que parecia... alívio.
— Somos filhas da floresta, Cateline. E foi ela quem nos chamou... até você.
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ATHAME
RomansaInglaterra, 1633. Em meio à floresta, onde as raízes sussurram e a noite parece eterna, vive Cateline Ashdown - uma jovem curiosa, marcada pelo mundo e moldada por forças que ninguém ousa compreender. Em um tempo de perseguições, onde o saber é puni...
