Raízes de Cinzas

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Não sabia há quanto tempo estava deitada na terra fria, os olhos secos fitando o nada enquanto a chuva apagava o que restava do fogo que devorou minha casa. A lama grudava em minha roupa, o cheiro de fumaça impregnava minha pele, mas eu já não sentia mais frio, dor, medo. Era como se eu tivesse morrido junto com tudo que amava.

As vozes chegaram primeiro, como ecos tímidos entre a neblina dos meus pensamentos.

— Cateline...? — chamou alguém, hesitante.

Não me mexi.

— Será que ela está morta? — disse outra voz, sem disfarçar a dúvida.

Por um segundo, um sorriso ácido quis escapar. Eu queria. Queria ter morrido junto.

— Claro que não, ela está respirando — uma terceira respondeu, prática, e senti passos se aproximando.

Não reagi.

— Olha isso, Thalia! A parte de trás da casa não queimou!

O nome fez algo estremecer dentro de mim.

Thalia.

Forçando o corpo a obedecer, abri os olhos. A visão turva encontrou rostos conhecidos — Thalia, Mirabel — e então o sonho voltou à mente, o calor, a mulher de olhos de fogo, o aviso que eu não entendi a tempo. Elas estavam aqui. Elas viram o que eu perdi.

Tentei me levantar, mas a terra parecia querer me engolir de volta. Mesmo assim, me ergui, os músculos protestando, as roupas pesadas de água e lama.

Vi as duas ajoelhadas entre os escombros da casa, remexendo entre restos carbonizados.

— Ei, vocês, se afastem! — minha voz saiu rouca, mas firme o suficiente.

Thalia ergueu o olhar e sorriu de lado.

— Viu? Ela não está morta — comentou com Mirabel.

Ignorando o comentário, avancei, tropeçando nos próprios pés, até alcançar o que um dia foi meu quarto. As tábuas queimadas escondiam algo que meu coração reconheceu antes dos olhos: minha cama. Ou o que restava dela.

Cavei com as mãos nuas, ignorando a dor, ignorando o sangue que logo brotou dos cortes. Cada pedaço de madeira arrancado era como puxar um pedaço do que sobrou de mim. Senti quando Thalia e Mirabel se juntaram a mim, sem palavras, apenas suas presenças firmes ao meu lado.

E então vi.

A caixa.

Intacta.

Aquela caixa de madeira talhada à mão, onde eu guardava tudo que era precioso, tudo que me lembrava quem eu era. A puxei para junto do peito e, com ela, veio a memória, quente e cortante, como um grito silencioso.

Fechei os olhos e deixei que o mundo desabasse de novo.

Flashback ON - dois dias atrás.

O dia do meu aniversário era o meu dia favorito do ano, apenas pelo fato de que minha família ficava o dia inteiro comigo. Mama sempre preparava minhas comidas favoritas. Papa não ia fazer negócios na cidade. Sofia queria sempre fazer tudo para mim. E eu me sentia como uma rainha.

Era divertido. Mas o que eu mais amava era simplesmente estar com eles, assim... juntinho.

— Pequena Atena, seus desejos hoje são uma ordem, pode pedir o que quiser — disse Mama, com um tom divertido, enquanto estávamos à mesa depois do café da manhã.

— Aah Mama, meu desejo já se realizou — falei divertida, rindo para ela.

— Ah é? E o que era? — Mama perguntou, sorrindo mais ainda.

ATHAMEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora