Minhas mãos suavam. A garganta estava seca. Tudo em mim gritava para correr.
— Somos filhas da floresta, Cateline. E ela nos chamou até você. — repetiu a mulher de olhos cor de âmbar, sua voz suave demais para aquilo ser reconfortante.
— Eu... eu preciso ir. — murmurei, dando um passo para trás.
— Não tenha medo — disse a outra, com um tom doce demais, como uma armadilha disfarçada de colo.
Mas eu tinha medo. E não era por ignorância.
Desde pequena, mama me ensinou a nunca brincar com aquilo que não se compreende. Ela dizia que o que parece mágico pode cobrar caro. Que a natureza dá — mas também tira.
E eu sabia o que diziam na cidade. Sabia o que acontecia com quem era acusado de se envolver com bruxaria. Minha família já era considerada "diferente" o bastante.
— Eu... eu não posso ficar. — repeti, agora com mais firmeza.
— Nós não vamos te fazer mal, Cateline — disse a mais baixa, com aquele sorriso inquebrável. — Só queremos mostrar o que sempre foi seu.
Meu coração dava voltas.
"Mostrar o que sempre foi meu"?
Como elas sabiam meu nome?
Como sabiam... sobre mim?
O instinto venceu.
Virei e corri.
Ouvi os galhos se quebrando sob meus pés. A floresta parecia apertar ao meu redor. Os sons dos pássaros se silenciaram, como se o mundo estivesse me observando. Como se a própria floresta prendesse a respiração.
Corri sem olhar pra trás.
Minha mente dizia que talvez elas estivessem me seguindo. Mas não ouvi passos. Nenhuma voz. Só o som do meu próprio coração.
Quando finalmente alcancei a clareira perto da minha casa, parei ofegante, curvada, com as mãos nos joelhos. Estava suando frio.
Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos.
O que foi aquilo?
Quem eram elas?
Como sabiam meu nome?
E por que aquilo parecia... certo e errado ao mesmo tempo?
Eu voltei pra casa sem dizer uma palavra.
Nem sobre o encontro.
Nem sobre a flor.
Mais tarde, fui até a cozinha e encontrei mama distraída, com os cotovelos apoiados sobre a mesa, mexendo em papéis antigos. Ela os analisava com o olhar de quem lia mais do que palavras — como se cada linha carregasse um eco do passado.
Sentei-me ao seu lado, tentando não atrapalhar.
— O que é isso, mama? — perguntei, observando os traços curvados na folha.
Ela sorriu, sem me olhar.
— Anotações... Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, costumava testar algumas fórmulas. — então, virou o rosto lentamente para mim e empurrou um dos papéis. — Essa aqui é sobre a cicuta. Em excesso, é fatal. Mas, na dose certa... é um anestésico poderoso.
Peguei o papel, tentando decifrar sua caligrafia. Era rústica, cheia de voltas e símbolos que não reconheci.
Mama percebeu.
— Cateline... você precisa treinar sua leitura e escrita. Não seja como tantas outras que se preocupam apenas com dotes, chás e vestidos.
A encarei, indignada.
— Ei, eu não sou assim! E nem gosto de chá! — revirei os olhos. — Sua letra é que parece um mapa de formigas...
Ela riu, e aquele som melodioso fez o ar da casa ficar mais leve. Acabei rindo junto.
— Posso ficar com eles?
Mama semicerrrou os olhos, pensativa, e então reuniu todos os papéis em um bloco grosso.
— Estava esperando você dizer isso. — sorriu, estendendo-os pra mim.
Peguei as folhas como quem recebe um tesouro. Tão animada que saí direto porta afora.
— Estou aqui na frente de casa! — gritei, sentando-me em um tronco que há anos me servia como banco. Ouvi a risada de mama vinda da cozinha.
Coloquei os papéis no colo. Uma lamparina ao lado da porta, somada ao brilho intenso da lua, me permitia ler mesmo naquela noite já avançada.
Li duas linhas.
Mas então... os olhos voltaram.
Olhos vermelhos.
Aqueles olhos que vi entre as árvores — ou sonhei?
Sem pensar, levantei-me. Os papéis ainda apertados contra o peito. E caminhei.
A floresta estava prateada sob a lua cheia. Um brilho que parecia sobrenatural. Os galhos pareciam dançar em silêncio e a grama murmurava sob meus pés.
Voltei ao mesmo ponto onde, horas antes, havia encontrado as duas mulheres.
Me escondi atrás da mesma árvore. Observei.
Uma delas — Mirabel — murmurava palavras em uma língua que minha pele parecia entender, mesmo que minha mente não. Diante dela, uma garota mais velha do que eu ajoelhava-se no centro de um círculo desenhado com cinzas e pétalas. Estava... nua.
Minhas bochechas queimaram. Meus olhos não conseguiam desviar.
Cada gesto era hipnótico. Cada palavra, uma batida no meu peito. E por isso, eu quase gritei quando senti uma mão tocar levemente meu ombro.
Virei-me de sobressalto.
Uma mulher de presença imensa, de cabelos escuros e expressão serena, me observava com um sorriso calmo.
— Quer se juntar a nós? — ela perguntou. — Você emana uma energia muito forte.
— Vocês são bruxas... Eu não posso. — me levantei depressa, tentando soar firme.
Ela me encarou sob a luz da lua, que fazia seu rosto parecer esculpido em pedra clara.
— Se está aqui... é porque devia estar. — sua voz era baixa, quase um canto. — A Grande Mãe não faz nada sem propósito.
Eu não conseguia responder. A floresta parecia girar devagar ao nosso redor.
Ela inclinou a cabeça, como se me estudasse por dentro.
— Criança... você estranha aquilo que não conhece. — sussurrou.
Então soprou levemente em meu rosto.
Um vento morno me atingiu. Um torpor imediato se espalhou pelos meus sentidos. O som da floresta se distorceu. A lua parecia se dissolver em borrões prateados.
Pisquei os olhos com dificuldade... e, por um instante, vi Mirabel erguer um punhal. Um brilho metálico que cintilou como um raio.
E depois... escuridão.
VOCÊ ESTÁ LENDO
ATHAME
RomanceInglaterra, 1633. Em meio à floresta, onde as raízes sussurram e a noite parece eterna, vive Cateline Ashdown - uma jovem curiosa, marcada pelo mundo e moldada por forças que ninguém ousa compreender. Em um tempo de perseguições, onde o saber é puni...
