A Chama que Precede a Tempestade

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Fazia algumas horas que eu estava sozinha na cabana.
Todas tinham saído para seus afazeres, deixando para trás apenas frases como:

— Fique à vontade.
— Não saia sozinha.

Por um momento, obedeci. Sentei na cama estreita, os cotovelos apoiados nos joelhos, encarando as paredes de madeira bruta enquanto as sombras dançavam preguiçosas ao redor, puxadas pela luz fraca das velas.

O silêncio era espesso. Vivo. Como se a cabana estivesse me observando também.

Mas eu não sou feita para esperar. Eu não podia esperar.

Me levantei devagar. Cada passo ecoava no assoalho antigo como um sussurro esquecido. Comecei a explorar.

Havia prateleiras improvisadas, carregadas de livros empoeirados. Alguns tão velhos que as capas de couro pareciam pele ressecada. Outros pareciam exalar conhecimento proibido.

Meus olhos foram atraídos por um em especial — um livro de capa escura, sem título.

Puxei-o da estante e abri na primeira página.

"Este livro pertence a Elowe."
A caligrafia era bonita demais, serpenteando pelas linhas como se cada letra fosse viva.

Folheei preguiçosamente.
"Feitiço do Sonho."

Meus olhos deslizaram pelas palavras difíceis, pesadas como pedras. Algo sobre invadir sonhos... mas a linguagem era quase indecifrável.

Suspirei.

Talvez houvesse algo ali... algo que pudesse me ajudar. A esperança, frágil como vidro, ainda latejava dentro de mim.

Então, num ímpeto cego, comecei a puxar mais livros. Desesperada. Voraz.

"Fortalecimento das unhas."
"Melhorar a aparência do cabelo."
"Como seduzir sua.... amiga????"

Parei, encarei a página. Meu estômago virou.

— Sério isso? — murmurei com amargura.

"Feitiço para dormir melhor."
"Receita para pele como de bebê."

O nó em minha garganta explodiu.

— Que droga... — sussurrei, jogando o livro inútil no chão. — Essa merda de ser bruxa não serve pra nada. Só serviu pra tirar minha família de mim!

A raiva cresceu como uma tempestade dentro do meu peito.

Dei um chute no livro espalhado.

As lágrimas desceram sem pedir permissão.
Pesadas, grossas, quentes.

Me encolhi no chão de madeira fria, abraçando os joelhos. Soluçando tão forte que meu corpo tremia. A dor me atravessava como um feitiço de gelo.
Eles eram inocentes.
E iam morrer.

E eu... eu era só uma menina impotente, perdida entre promessas vazias.

Minhas mãos tremiam de raiva.
O peito ardia de frustração.

Foi então que vi.

Enquanto arrastava o livro para devolvê-lo à prateleira, um papel escuro, escondido entre as páginas, deslizou para fora como uma serpente saindo da toca.

Fiquei imóvel.

O pergaminho era negro, gasto, e brilhava estranhamente sob a luz das velas.

Peguei-o com dedos trêmulos.

"RITUAL DE SANGUE."
As palavras prateadas pareciam pulsar contra minha pele.

Tive certeza: aquele papel não estava ali antes.

ATHAMEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora