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Marcus Rinaldi

O céu ainda estava escuro quando abri os olhos. A casa estava em silêncio, e o único som que preenchia o quarto era o da respiração suave de Glenda, adormecida ao meu lado.

Virei lentamente o rosto, apenas para contemplá-la. Seu corpo ainda nu sob o lençol branco, a pele com marcas leves dos momentos intensos que havíamos compartilhado. Seus cabelos estavam espalhados no travesseiro como uma moldura perfeita para seu rosto sereno. Parecia tão frágil... e ao mesmo tempo, tão minha.

Meu peito se apertou.

O que estou fazendo com ela?

Pensei que bastava tê-la por perto, que bastava me certificar de que ela estava aqui, segura, longe de tudo e de todos. Mas agora... agora era diferente. Eu sentia algo mais. Algo que ia além da posse, além da obsessão que sempre me guiou. Era como se, de alguma forma, ela fosse a âncora que meu mundo sangrento precisava. E não só ela. Nosso filho também.

O filho que jamais achei que teria.

Acariciei de leve a curva de sua barriga ainda discreta sob o lençol, com o cuidado de não acordá-la. Um herdeiro. Meu sangue. E, por algum milagre torto do destino, fruto de algo que parecia impossível.

Fechei os olhos por um instante. A calmaria era perigosa. Me distraía. E eu não podia me dar esse luxo. Não agora.

Dante havia me enviado uma mensagem no meio da madrugada: os homens do cartel estavam se movendo. O aviso veio tarde, mas não tarde o suficiente para eu perder o controle. Não permitiria que tocassem em nada do que era meu — especialmente Glenda e nosso filho.

Levantei com cuidado, sentindo o frio do chão de mármore sob os pés. Fui direto para o banheiro para um banho  e deixei que a água quente deslizasse pelo meu corpo por longos minutos. O vapor tomou o ambiente como uma névoa densa, tentando, em vão, apagar o peso dos pensamentos que carregava.

Esfreguei o rosto com as mãos, como se pudesse lavar junto o sangue, os segredos e as escolhas que me moldaram até aqui. Mas nada remove isso. Está entranhado. Como cicatrizes invisíveis.

Ao terminar o banho, alcancei uma toalha felpuda e sequei os cabelos com pressa. Envolvi a toalha ao redor da cintura e segui até o espelho grande que cobria quase toda a parede. O vidro ainda embaçado revelava apenas contornos um vulto largo, ombros tensos, o olhar pesado. Passei a mão sobre o vidro, limpando uma parte suficiente para me encarar de frente.

Ali estava ele: o Don. O mafioso. O homem temido.

Mas... algo estava diferente.

Meus olhos tinham outro brilho. Menos aço, mais carne. Menos cálculo, mais confusão. Havia uma sombra de suavidade ali que me irritava e, ao mesmo tempo, me fascinava.

Respirei fundo.

Nunca fui o tipo de homem que acordava com uma mulher ao lado  a muito tempo, pelo menos não a mesma por duas noites seguidas. E agora... ali estava ela. Glenda. A mulher que eu havia feito minha, mesmo que de forma questionável. A mulher que carregava o meu filho. A única capaz de arrancar um suspiro meu no meio da madrugada, só por mexer na cama.

Eu era o predador. Mas com ela, às vezes, me sentia a caça.

Meu peito contraiu com a lembrança do corpo dela colado ao meu durante a noite, do jeito que ela sussurrava meu nome, mesmo entre o medo e a resistência. O jeito como, por um segundo, me olhou como se eu fosse mais do que o monstro que o mundo conhece.

Droga... o que ela está fazendo comigo?

Fechei os olhos e me apoiei na pia, os nós dos dedos empalidecendo sobre o mármore frio.

Grávida do Mafioso Onde histórias criam vida. Descubra agora