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Glenda

Nova York nos recebeu sem cerimônia.

Sem o calor suave da Itália, sem o perfume das flores que pareciam ter impregnado minha pele nos últimos dias. Apenas o céu baixo, pesado, como se estivesse prestes a desabar sobre a cidade a qualquer instante.

O carro deslizava pelas ruas movimentadas enquanto eu observava pela janela o fluxo incessante de pessoas. Elas caminhavam apressadas, quase correndo, com os ombros curvados dentro de casacos escuros, protegendo-se do vento frio que parecia atravessar até a alma.

Era um movimento contínuo, quase mecânico.
Uma coreografia silenciosa de sobrevivência.

Senti algo estranho crescer dentro de mim. Uma mistura de melancolia e familiaridade. Como se aquele cenário me pertencesse... e ao mesmo tempo não. Como se eu estivesse retornando para uma vida que já não reconhecia completamente.

Na Itália, o tempo havia sido gentil.

O sol aquecia a pele, o ar era leve, e até o silêncio parecia ter uma textura diferente, mais macia, mais humana. Lá, eu conseguia fingir que minha vida era simples. Que meu casamento era apenas um romance intenso e confuso.

Aqui... tudo parecia mais real.
Mais duro.
Mais inevitável.

Encostei a testa no vidro frio da janela, sentindo o contraste quase cruel com a memória recente do calor italiano. O céu cinzento de Nova York parecia refletir exatamente o que se formava dentro de mim: uma inquietação silenciosa, densa, difícil de nomear.

As buzinas, os semáforos, as luzes refletidas no asfalto úmido... tudo compunha um cenário que não permitia ilusões.

Era o mundo de Marcus.

E agora, inevitavelmente... também seria o meu.

Respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos, enquanto o carro avançava pelas avenidas como se tivesse um destino já traçado muito antes de eu sequer existir nessa história.Ao meu lado, Marcus permanecia em silêncio.Mas sua presença preenchia o espaço de forma quase palpável.

Nova York não era apenas uma cidade.

Era um aviso.

E, pela primeira vez desde que deixamos a Itália, senti que a verdadeira lua de mel havia terminado.

O carro desacelerou lentamente antes de atravessar os portões de ferro negro que se abriram com um rangido pesado, quase solene.

Meu coração apertou no mesmo instante.

Não era apenas uma casa.
Não era apenas uma mansão.

Era... um território.

O tipo de lugar que parecia ter suas próprias regras, sua própria respiração.

A construção surgiu diante de mim como uma fortaleza elegante e ameaçadora ao mesmo tempo. Pedra clara, colunas imponentes, janelas altas como olhos vigilantes observando cada movimento. O jardim era perfeitamente aparado, sem uma folha fora do lugar — uma beleza controlada, quase artificial.

Tudo ali parecia excessivamente organizado.
Calculado.
Dominado.

Engoli em seco.

— É aqui que você mora... — murmurei, sem conseguir esconder o espanto.

Marcus apenas inclinou levemente a cabeça, como se aquilo fosse a coisa mais banal do mundo.

— É aqui que vivemos agora.

A forma como ele corrigiu a frase fez algo estremecer dentro de mim.

Vivemos.

O carro parou completamente, e antes mesmo que eu pudesse reagir, a porta ao meu lado foi aberta por um homem de terno escuro, expressão neutra e olhar atento.

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⏰ Última atualização: 2 days ago ⏰

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