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A madrugada em Rosewood tinha um silêncio quase sufocante, quebrado apenas pelo tic-tac insistente do relógio no quarto dos Hastings.
Spencer estava acordada, como sempre. Sentada diante da escrivaninha, cercada por livros, provas antigas e anotações que preenchiam páginas e mais páginas.

Mas nada disso prendia sua atenção. Os olhos dela se moviam de tempos em tempos para o celular sobre a mesa, como se esperasse que A aparecesse na tela a qualquer segundo.

O coração acelerava só de pensar nisso.

Respirando fundo, ela abriu a gaveta da escrivaninha. O frasco de comprimidos estava lá. Ela pegou-o, encarando o rótulo como se fosse um segredo proibido.

— Só mais um... — sussurrou para si mesma.

Engoliu o remédio com um gole de água, tentando convencer a própria mente de que precisava daquilo para seguir em frente. Para continuar no controle.

Um leve toque na porta a fez sobressaltar.

— Spencer? — a voz de Melissa veio abafada do corredor. — Ainda acordada?

Apavorada, Spencer fechou a gaveta num estalo.

— Estou terminando uma redação! — respondeu rápido demais.

A porta se abriu e Melissa entrou. A postura impecável, os braços cruzados, o olhar crítico que sempre parecia atravessar Spencer.

— Você precisa dormir. — disse, com aquele tom frio de irmã mais velha. — Harvard não vai aceitar uma candidata que desmorone antes da entrevista.

Spencer respirou fundo, tentando não gritar. — Eu sei.

— Não é só sobre notas. — Melissa continuou. — É sobre equilíbrio. Você precisa parecer estável, segura. Não... — fez uma pausa, escolhendo a palavra — ...ansiosa.

Spencer mordeu a língua para não retrucar. Quando Melissa saiu, fechando a porta, ela deixou escapar um suspiro trêmulo.
Ela não podia desmoronar. Não diante de Melissa. Não diante de ninguém.

Mas, sozinha, no escuro, sentiu as lágrimas que vinha segurando deslizarem silenciosas pelo rosto.

A manhã seguinte trouxe o grupo reunido na cafeteria de Rosewood. O lugar estava cheio, mas a mesa delas parecia isolada do mundo.

Hanna mexia no celular, distraída, mas o nervosismo era óbvio em cada gesto. Aria tomava o café sem provar o sabor, os olhos sempre baixos. Emily estava com o olhar distante, como se carregasse o peso do mundo nos ombros.

Spencer, impecável como sempre, mas com olheiras evidentes, foi a primeira a quebrar o silêncio:

— Precisamos parar de esperar por A.

As outras olharam para ela, surpresas.

— O que você quer dizer? — Aria perguntou, cautelosa.

— Que estamos sempre reagindo. — Spencer falou firme, sem baixar o tom. — A manda uma mensagem, nós entramos em pânico. A ameaça, nós corremos para apagar rastros. Estamos deixando ele — ou ela — ditar as regras. Isso precisa mudar.

Hanna bufou, largando o celular na mesa. — Fácil falar. E como você pretende mudar isso, Spencer? Quer caçar fantasmas em Rosewood?

— Não são fantasmas. — Spencer rebateu, com firmeza. — É alguém de carne e osso. Alguém que está entre nós.

Emily passou as mãos no rosto, cansada. — Você fala como se fosse tão simples. Como se fosse só... descobrir. Mas e se A souber mais sobre a gente do que nós mesmas?

Spencer inclinou-se sobre a mesa, a voz carregada de convicção. — A pode saber nossos segredos. Mas nós sabemos como lutar.

Aria a encarou, hesitante. — Às vezes, parece que você quer transformar isso num jogo de xadrez.

— Não é um jogo. — Spencer respondeu, séria. — É guerra.

O silêncio tomou a mesa. Por um instante, cada uma delas refletiu sobre aquelas palavras.

Emily foi a primeira a quebrar: — Eu não sei se consigo. Eu já estou no meu limite.

Spencer surpreendeu todas ao pegar na mão dela. — Você não está sozinha. Nenhuma de nós está.

O gesto, raro para Spencer, mostrou uma face mais vulnerável dela. Mas, ao mesmo tempo, reforçava sua determinação: ela estava disposta a tudo para proteger as amigas.

Mais tarde naquele dia, Hanna estava em seu quarto, deitada na cama com o celular na mão. O quarto refletia sua personalidade: roupas espalhadas, maquiagem sobre a penteadeira, mas também pequenos detalhes que mostravam sua tentativa de manter uma vida "normal" em meio ao caos.

Ela olhava para uma foto antiga: ela, Davina e Mona juntas na escola. Davina com aquele sorriso de rainha do pedaço, Hanna tentando imitar a confiança dela, e Mona no canto, claramente deslocada.

Hanna sentiu o estômago apertar.

— Eu sinto falta dela... — murmurou para si mesma.

Caleb entrou no quarto sem bater, jogando-se na poltrona. — De quem você sente falta?

Hanna engoliu em seco, escondendo o celular. — Da Davina.

Caleb suspirou. — Você sabe que pensar nisso não vai mudar nada, certo?

— Eu sei. — Hanna respondeu, a voz embargada. — Mas... eu nunca disse a ela o quanto eu... o quanto eu a admirava. Mesmo quando ela era cruel. Mesmo quando eu discordava dela.

Caleb não disse nada, apenas se levantou e a abraçou. Hanna fechou os olhos, permitindo-se chorar em silêncio.

No fim da noite, Spencer estava novamente em seu quarto. O notebook aberto, várias janelas de pesquisa espalhadas pela tela. Cada detalhe das mensagens de A anotado e analisado.

Mas nada fazia sentido.

O coração dela batia rápido demais. Os pensamentos estavam desordenados, caóticos. Ela sentia que precisava estar no controle, mas a verdade era que estava se perdendo.

Abriu novamente a gaveta, pegando outro comprimido. Olhou para o espelho do quarto. O reflexo mostrava uma garota impecável, mas os olhos estavam vermelhos, cansados, desesperados.

— Você tem que ser perfeita. — murmurou para si mesma. — Precisa estar no controle. Sempre.

Mas quando a lágrima escorreu, Spencer não teve forças para escondê-la.
E, sozinha no quarto, deixou o choro contido vir à tona.

A garota perfeita estava em pedaços.

A garota perfeita estava em pedaços

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⏰ Última atualização: Oct 03, 2025 ⏰

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