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O chalé parecia respirar com o vento noturno. Cada estalo da madeira velha fazia Davina se encolher mais na poltrona onde passava horas. Havia se tornado quase um hábito: observar o nada, tentando conectar as peças do jogo em sua mente.

Do lado de fora, o barulho do mar vinha como um lembrete constante de que ela estava longe de tudo — das amigas, do irmão, da vida perfeita que construíra em Rosewood.

"Todos acham que eu estou morta." O pensamento vinha como uma lâmina cortando sua mente.

Ela fechou os olhos por um instante e viu a cena se repetir: o ensaio de líderes de torcida, o corredor vazio, a sensação de estar sendo seguida, o golpe na cabeça. Depois, apenas sangue, escuridão, silêncio.

A porta rangeu, interrompendo a memória. Isaac entrou, pingando da chuva, com o capuz ainda na cabeça e sacolas nas mãos.

— Está chovendo horrores lá fora. — ele disse, fechando a porta com o ombro.

Davina ergueu os olhos, mas não mudou de posição. — E o que isso muda? A tempestade já está aqui dentro.

Isaac soltou um suspiro pesado, largando as sacolas na mesa. — Você precisa pelo menos tentar parecer humana.

Ela arqueou uma sobrancelha. — Dormir? Comer? Agir como se eu não tivesse alguém caçando cada passo meu? Não, obrigada.

Isaac se aproximou, apoiando-se no encosto da poltrona. — Se continuar assim, vai acabar se destruindo antes que A tenha chance.

Por um instante, Davina desviou o olhar. O rosto ainda era o da garota que dominava Rosewood, mas havia uma sombra nova em seus olhos: medo.

— Eu não vou dar esse prazer a A. — disse, a voz firme. — Ninguém joga melhor que eu.

Mais tarde, Jackson chegou. O casaco encharcado, a mochila jogada com descaso sobre a cadeira, o mesmo olhar confiante de sempre.

— Adivinha quem roubou a cena no primeiro dia? — ele disse, se jogando na cama velha do chalé. — Todos os olhares estavam em mim. Inclusive o seu irmão, Davina.

Ela se endireitou na poltrona, o coração acelerando. — Luca?

Jackson sorriu de canto. — Continua o mesmo garoto metido, cercado de amigos e sorrisos falsos. Mas eu vi nos olhos dele. Ele está sofrendo.

Davina desviou o olhar para o chão. As unhas arranharam o braço da poltrona, sem que percebesse.

— E as meninas? — perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.

Jackson apoiou os braços atrás da cabeça. — Spencer está se transformando em uma detetive. Emily... mal consegue esconder o medo. Hanna tenta parecer forte, mas está quebrada por dentro. Aria... parece que vai desmoronar a qualquer momento.

A cada nome, Davina sentia uma facada diferente. Lembrava-se das risadas nos treinos, dos segredos compartilhados em sussurros, até das discussões. Eram suas amigas. Sempre tinham sido.

— A está destruindo elas. — murmurou, quase para si mesma.

Isaac cruzou os braços, encostado na mesa. — E você também está sendo destruída. Fingir que não sente falta delas não vai mudar isso.

— Eu nunca disse que não sinto falta. — Davina rebateu, rápido demais.

Jackson arqueou uma sobrancelha, divertido. — Então admite?

Ela o encarou com dureza. — Eu posso ter sido cruel, eu posso ter usado segredos contra elas. Mas nunca deixei de me importar. São minhas amigas.

Jackson riu de leve. — Esse seu "me importar" é bem peculiar.

Davina se levantou, andando até a janela. — Peculiar ou não, eu protejo quem é meu. Sempre.

Enquanto isso, em Rosewood, os celulares vibraram quase ao mesmo tempo.

Spencer, cercada de livros e anotações, leu em silêncio:
"Segredos enterrados sempre voltam à tona. O próximo pode ser o seu. –A"

Hanna, no quarto, ficou pálida. Forçou um sorriso quando a mãe chamou pela porta, mas assim que ficou sozinha, deixou as lágrimas caírem.

Aria apertou o celular com tanta força que os dedos doíam. O medo se espalhava por dentro, mas ela não deixaria ninguém ver.

Emily, deitada na cama, leu e deixou o aparelho cair. Um soluço escapou antes que pudesse se controlar.

A estava em todos os lugares, sempre um passo à frente.

Luca atravessava os corredores da escola com a mesma confiança de sempre. O sorriso metido, o andar seguro, os amigos ao redor. Mas por dentro, cada comentário sobre a irmã era como uma facada.

Jason o acompanhava, sempre leal. — Você está bem? — perguntou em voz baixa.

— Claro que estou. — Luca respondeu, o sorriso no rosto. — Eu sou um Salvatore. Sempre estou bem.

Mas quando chegava em casa, trancava-se no quarto. Ligava o som no último volume, se jogava na cama e, pela primeira vez, deixava as máscaras caírem.

No chalé, a noite já avançava. Isaac dormia encostado na mesa, Jackson rabiscava algo em um caderno. Davina, porém, estava diante do espelho rachado.

Seu reflexo a encarava: a garota perfeita, bonita, charmosa, com os olhos cheios de segredos. Mas agora, havia algo novo. Algo que nem ela conseguia controlar.

— Você pode me caçar, A. — sussurrou. — Mas eu sei jogar melhor do que ninguém.

O som do mar encheu o silêncio. E pela primeira vez, Davina não sabia se era a caçadora... ou apenas mais uma presa no jogo.

 ou apenas mais uma presa no jogo

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