Já passava do meio dia quando saí do meu quarto para ir comer algo. A companhia de Chaery foi embora antes que eu pudesse ver, me deixando apenas o barulho da porta de entrafa batendo como pista de quem poderia ser. E uma curiosidade incessante.
Fui para a cozinha esquentar o que tinha de resto na geladeira, enquanto esperava o micro-ondas pude ouvir o barulho da porta do quarto de Chaery se abrir. Peguei meu prato quente de macarrão com carne de panela e molho, um garfo e andei até o balcão americano que dividia a pequena cozinha da sala. Dei a primeira garfada quando Chaery adentrou o cômodo e foi para a pia lavar sua garrifinha de água. Tentei não a observar enquanto ela enchia sua garrafa com a água do filtro e lavava algumas uvas verdes para comer, mas a cada passo dela eu sentia uma necessidade imensa de olhá-la. Em quase 20 anos de amizade, nunca havíamos brigado a ponto de não nos falarmos. Normalmente a gente dava o chocolate favorito para a outra como pedido de desculpas e a discussão era dada como encerrada e esquecida. Mas até então, nunca havia acontecido uma discussão tão aleatoriamente intensa quanto a de ontem.
Estava parada encarando o chão quando senti seu corpo passar ao lado do meu e me acordar do transe, a observei andar tranquilamente de volta para seu quarto e fechar a porta, me fazendo soltar um suspiro alto. Devorei mais uma garfada do macarrão com carne quando senti meu celular vibrar, tirei do bolso e atendi a chamada de vídeo de Ryujin, mesmo com a boca cheia.
-Oii Cind, finalmente levantou. Está comendo?
-Uhum
Foi a única coisa que consegui falar sem precisar abrir a boca, o que fez Ryujin rir do outro lado da tela. Voltei a mastigar, como um esquilo com a boca cheia de nozes.
-Serei breve pra não atrapalhar seu café da manhã. Ou almoço..? Enfim. Sobre o jantar hoje, gostaria que trouxesse uma coisa, pode ser?
-Uhum!
Acenei que sim com a cabeça, confirmando loucamente, me sentindo útil enfim para essa janta.
-Ótimo. Quero que traga aquele seu joguinho de peças, jenga.
-Hum?
Estranhei, virei a cabeça confusa e curiosa, mas Ryujin apenas sorriu
-Sim, é só isso. Te vejo hoje a noiteee
-Espera!
Quando finalmente engulo a comida da boca, Ryujin mandou beijos e desligou. Droga.
Eu pedi incansavelmente para Ryujin me deixar levar algo para esse jantar. Ela levou vinho quando conheceu meus pais e foi um ótimo jeito de começar uma boa impressão.
Eu detesto ir á um evento de mãos vazias, me sinto como uma aproveitadora. Mas quando eu pedi para levar algo, me referia á um prato de guarnição ou bebida e não um jogo de mesa. Dei mais uma garfada no macarrão decidida a terminar aquele café da manhã de almoço enquanto rolo o feed do meu instagram. Fazer as coisas em casa sem Chaery é tedioso, sinto falta dela.
...
Chaery saiu do quarto algum tempo depois que saí do banho, sei disso pois antes de ligar o secador de cabelo pude ouvir o barulho da tv da sala ligada na sua série favorita. Não pude evitar de sentir meu coração pesar, não sei o que fazer. Se deixo ela no tempo dela vir conversar, se eu a chamo pra conversar.. Com todo aquele papo esquisito de que é sempre sobre mim eu comecei a repensar 20 vezes antes de falar algo. E se eu a chamar pra conversar e ela reclamar porque eu estou indo no meu tempo? E se eu não a chamar e ela reclamar que eu não ligo? Já não duvido de mais nada e nem sei o que pensar disso tudo. Por isso preferi ne arrumar para ir ao mercado ver algo gostoso pra levar pro jantar de hoje.
Após me arrumar e encarar mais uma vez a mecha rosa desbotada do cabelo, sinto meu celular vibrar e o pego sentando na ponta da cama.
Sana: Oii menininhas. Estou livre do trabalho nesse fim de semana. Quem está afim de vir dormir em casa? Jennie: Aeeeee noite das meninass 🥳 Chae: Eu topo!! Lisa: Eu também!
Estava esperando a mensagem de chaery antes de responder, confesso. Porque agora não sei se estaremos bem no fim de semana para irmos juntas para a casa da Sana sem que crie um climão. Mas também não sei se passaremos os próximos dois dias nesse castigo do silêncio.
Me joguei de costas no colchão e encarei o teto bufando alto. Odeio não ter certeza das coisas.
Meu celular vibrou mais uma vez e dessa vez a vibração longa me fez sorrir. Ryujin. Li sua mensagem pela barra de notificações e sorri com tamanha fofura.
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"Ansiosas para a noite chegar só para poder te ver. Se eu fosse você viria logo viu, o panda me disse que está com saudades"
Yeji: Aé? Só o panda que está com saudades? Ryu; Ele é meio sentimental sabe? Já comentou de você umas três vezes só hoje Yeji: Isso é meio preocupante.. Ryu: Preocupante gostar de você? O coitado sente sua falta Yeji: Não, preocupante você ouvir um bicho de pelúcia falar Ryu: KKKKKKKK idiota Yeji: KKKKKKKK Yeji: Aliás, o nome do seu panda é panda? Ryu: Sim, gostou? Yeji: Precisa exercitar melhor a sua imaginação Ryu: Ele é um panda oras! Porque não pode se chamar panda? Yeji: É que nem você se chamar humana Ryu: Você pode me chamar do que quiser Yeji: Do que eu quiser?👀 Ryu: Sim👀
Estava digitando uma resposta para Ryujin quando ouvi o barulho de vidro quebrando na cozinha e larguei meu celular na cama para correr até lá. Encontrei Chaery agachada catando com delicadeza os cacos de vidro maiores com as mãos, que por sinal estavam sangrando.
-Está tudo bem? O que houve?
Me aproximei enquanto olhava para toda a cena tentando deduzir o que houve. Chaery me respondeu sem me olhar, concentrada nos cacos no chão.
-Acabei com a nossa única jarra de suco. Desculpe
-Está tudo bem, a gente compra outra depois. Está sangrando, vai lavar sua mão e deixa que eu limpo tudo aqui
-Não, não precisa. Eu to bem.
Me abaixei na sua frente e segurei sua mão.
-Pode ir. Eu arrumo isso
Meu tom foi incisivo e ela ficou imóvel olhando para o chão. Ficamos em silêncio por uns segundos, eu a encarando e ela olhando para a bagunça que fizera. De repente a ouvi fungar e a puxei para o meu colo em um abraço. Ela apoiou a cabeça no meu ombro e colocou o braço livre ao redor das minhas costas, deixando a mão sangrando que segurava os cacos o mais longe que conseguia. Passei a mão por seus cabelos e respirei fundo enquanto a ouvia chorar baixinho.
-Acha que é uma boa hora para a gente conversar?
Ela apenas afirmou com a cabeça, afundando ainda mais seu rosto em meu pescoço. Eu fiquei ali fazendo carinho nela por um tempo, esperando que ela se acalme para podermos organizar a bagunça juntas e conversar. Meu coração estava aliviado e apertado ao mesmo tempo, era uma sensação esquisita, um misto de felicidade por ela ter aceitado minha ajuda e preocupação com o seu choro repentino.