Ela não era especial, nunca havia sido. Mas cresceu pensando que faria a diferença no mundo. Grande erro, concluiu enquanto esperava na fila da recepção. Facilmente poderia ser substituída em seu emprego, pessoas mais bem qualificadas poderiam fazer um trabalho melhor que o seu e ela sabia disso.
Mas a ansiedade fazia seu coração se acelerar, a espera do resultado um pisca-alerta constante em sua mente. Dores de cabeça a incomodavam esporadicamente, e até aí não havia problema algum. O mundo não pararia por causa de uma enxaqueca incômoda, nisso seu chefe e sua família tinham razão.
Tudo mudou quando os desmaios começaram, a fadiga que fazia com que dobrasse seu esforço para simples tarefas como caminhar e escovar os dentes. Com um otimismo que havia recebido diretamente de seu amigo ela conseguiu não pensar nas piores possibilidades. Era um mal-estar, simples assim. Bastavam remédios e tempo e logo estaria tão comum como uma nuvem branca em dias de primavera.
_Léia?_ a atendente chamou.
Se levantando com a compostura que conseguia ela caminhou até a sala da médica indicada e se preparou para umas poucas palavras, uma declaração para o dia de trabalho e, talvez, alguns remédios para pouco mais de uma semana. Mas não foi isso que aconteceu.
Ainda sentada, a voz da médica perdida em sua mente, ela repetia o que ouviu sem acreditar.
_Os tumores foram encontrados espalhados por todo o seu cérebro_ tumores, Léia pensou, era impossível que os tivesse. Não era?
_O que... O que isso significa à longo prazo?_ conseguiu perguntar, enquanto segurava as duas mãos para que não tremessem.
_Eu sinto muito, mas você tem tumores espalhados por todo o corpo.
_Mas tem tratamento?_ quis saber. Mesmo que uma parte sua já soubesse a resposta.
_Infelizmente já é ineficaz induzirmos radioterapia ou quimioterapia.
Ela agora não era mais tão comum assim, pensou e tentou rir. Logo sentindo que chorava.
_Alguma previsão de quanto tempo eu tenho?
_Oito meses, um ano. É difícil estipular isso agora_ a médica disse, oferecendo um lenço.
_Quanto tempo até eu não conseguir mais caminhar?
_Seis meses_ disse com a voz pesarosa.
_Entendo_ e de fato ela entendeu.
Os pássaros cantavam quando ela visitou seu amigo e o beijou, ainda cantavam quando abraçou seus pais e disse que os amava. E continuaram cantando quando ela vomitou sangue, andou pela última vez, sorriu para seu namorado e disse que ele era seu porto seguro. Eles cantaram lindamente no dia em que respirou pela última vez, no dia em que foi enterrada. E continuaram cantando.
Ela sempre amou isso: como a vida era tão viva.
Estephany C.S.A
