Tempo de espera

286 14 7
                                        

Dizem que, quanto maior o tempo de espera, maior será o que te aguarda no final dele. Nunca fui muito do tipo que aguarda sentado, mas sim do que tentava a todo custo girar o mundo com as próprias mãos, só que me vi encurralado quando, o que eu mais queria no fim de tudo era ser dela e agora, me encontrava do outro lado do rio, sem remo para entrar no barco e voltar ao calor que meu corpo reconheceu nessa vida, porém fiquei já com aquela sensação estranha de frio na barriga, como se meu momento atual pudesse me dar um vislumbre de como seria nosso futuro próximo.

E infelizmente, ele não aparentava ser muito condizente com meus sonhos.


O inverno desse ano parecia estar mais rigoroso e narcisista do que de todos os outros anos juntos. Minhas mãos pareciam congelar por baixo da camada grossa das luvas e, mesmo dentro dos bolsos, sentia meus dedos querendo largar meu corpo ali e voltar correndo ao dormitório. Era minha primeira vigília alistado. Depois de toda despedida traumática, de todo abraço dado, dos alertas de carinho que minha mãe proferiu abraçada em mim, dos tapinhas nas costas que ganhei de meu pai, e claro, depois do último beijo que roubei dela, escondidos em um cantinho que julguei ser longe dos olhares curiosos que estavam ali.

Ainda lembrava vividamente de toda sensação. Os cabelos rebeldes apontando em todas as direções no vento, enquanto eu lutava para manter minhas lágrimas escondidas sem atrapalhar a visão que me era possível ter dela, esmagadinha em minhas roupas de frio, o rostinho quase todo tampado pelo capuz felpudo e a máscara pendurada em uma orelha só. Sn era a coisa mais linda do mundo, minúscula diante de toda bagunça que minha vida havia se tornado em todos esses anos. Os olhinhos brilhando e eu bem sabia que, mesmo que ela tentasse com todas as forças exatamente do jeito que vinha fazendo, de mim não era possível esconder a mulher doce e gentil que estava por trás deles, embora sempre existisse uma carapaça duríssima ao redor dela, lutando desesperadamente para fingir que o coração não gritava por amor, assim como o meu.

Me veio a sensação de seus dedinhos quentes, recém tirados, com teimosia, das luvas, tocando minhas bochechas e o dedo indicador repousando em minha covinha direita, exatamente onde ela havia se acostumado a beijar antes de ir dormir.

Meu coração revirou no peito e senti uma pontada no estômago, como um frio que se espalha até as extremidades dos dedos das mãos e pés.

Dor emocional que se torna física.

E, novamente vi seu rosto, pertinho do meu, escondidinho num espaço único, ambos com medo e esperança, ela com menos garantias do que eu, mas mesmo assim, Sn se colocou em pontinha de pés e selou meu sorriso.

Uma vez.

Duas vezes.

Deixando uma mordidinha na terceira.

Uma lágrima escorreu e ela fez biquinho tentando esconder, perdendo a pose me encarando com medo do futuro e eu puxei-a para mim, roubando a boca para a minha, beijando-a com toda minha vontade contida, como se aquele beijo pudesse ser a maior promessa que faria toda questão do mundo de cumprir. Um grito silencioso de minha alma, sendo emanado pro universo: "eu volto pra você, Minha Vida".

Agora, sentado debaixo de uma árvore branqueada pela neve, estendi os braços para a fogueira e acabei soltando um sorriso. Era por volta de duas da madrugada para mim e duas da tarde para ela, provavelmente Sn estivesse reclamando nesse exato momento do calor ou da chuva repentina. Talvez até estivesse me mandando milhões de áudios e vídeos que eu só conseguiria assistir depois que o sol já estivesse alto, frio porém brilhante. Ou vai ver ela só estava sentada em alguma aula, pensando em mim do mesmo jeito que penso nela.

O calor do fogo aqueceu minhas palmas por dentro das luvas e um barulho distante fez com que meu colega de turno e eu nos levantássemos para ver o que havia na escuridão adiante. Ele ergueu a tocha no ar e entrou no caminho que nosso pelotão criou com pás entre a neve alta, havia nevado o dia todo, então seguimos até conseguirmos ver um dos cachorros do nosso campo passeando por entre os galhos baixos.
-Achei que fosse um tigre. -Brincou Min Jun voltando para perto do fogo.
-Sorte que estão extintos. -Retruquei acompanhando-o. -Infelizmente javalis ainda ficam por aqui.

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Jul 29 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

Melhores AmigosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora