Há um ponto próximo da Quinta avenida, exatamente depois da Biblioteca municipal e seus lindos leões de pedra, que havia se transformado em uma parada obrigatória todas as vezes que caminhava até a livraria. Era apenas mais um prédio bagunçado e repleto de lojas de comida rápida e souvenires da cidade bem no térreo, mas para mim era uma lembrança. Melhor dizendo, uma promessa.
Se subisse pela porta que ficava exatamente entre o restaurante tailandês e a loja de eletrônicos, bem no terceiro andar, na quarta porta à direita; ficava o primeiro apartamento que decididamente cobicei em vida. Não que não tivesse desejado mais nada na minha breve existência mortal, mas aquele conjunto de janelas sujas e uma escada de incêndio decadente eram exatamente o que perturbava minha mente todas as manhãs quando passava por ali.
Estava entrando no segundo ano de faculdade quando viajei para Nova Iorque com meu pai. Era apenas uma daquelas saídas que fazíamos para estreitar nossos laços de pai e filha nos poucos feriados em que ele dispunha de um tempo livre para tentar compensar a ausência. Ele se esforçava, como sempre, me levando a lugares que considerava muito chatos, como musicais e museus, comprando dezenas daquelas quinquilharias para turistas e escutando meus gritinhos animados com qualquer coisa.
Quando disse que um dia moraria na Grande Maçã, o Sr. Dalton começou a rir e questionar se eu conseguiria sobreviver naquela selva de pedra por mais do que alguns dias. Tudo bem que ele estava certo na maioria daquelas coisas – e eu comprovei tudo veridicamente – mas naquela altura da vida eu só queria provar para mim mesma de que era capaz de me orgulhar da minha força. Ou da minha falta de juízo.
Naquele dia tínhamos acabado de sair da biblioteca e comprado um par de scones quando ele enxergou uma placa de aluga-se. Não parecia o melhor lugar do mundo, mas ele quis dar uma olhada, brincando que ali poderia ser a minha casa quando me mudasse.
Bastou pegar as chaves na apertada recepção do prédio e subir os lances de escada para um corredor iluminado e com cheiro de cera nova. As portas brancas tinham acabado de receber números novos e o número 9 estava brilhante bem acima daquele ponto do olho mágico. Demorou um pouco para conseguirmos encontrar a chave certa naquele molho de cinco chaves, mas foi incrível quando entramos.
O lugar todo era voltado para a avenida, com janelas cobertas por persianas beges. Uma sala conjugada com a pequena cozinha, um charmoso balcão de formica separando o ambiente com algumas banquetas altas. Na parede esquerda a primeira porta levava para um banheiro médio, bem maior do que o do meu porão atual e com uma banheira velha que ficaria linda depois de algumas escovadelas. E na segunda porta o quarto, nada gigantesco, mas que comportaria minha cama com uma boa folga para uma escrivaninha virada para a Quinta e perfeita para começar o primeiro rascunho do meu futuro livro. Aquele que um dia vou escrever e se tornar um best seller internacional – se escrevê-lo, claro.
Conseguia me imaginar perfeitamente sentada naquele parapeito largo, folheando as páginas da primeira edição com cheiro de papel novo, reescrevendo tudo dentro da minha cabeça e me criticando por não ter escrito uma coisa diferente ou maior. Talvez uma série. Uma trilogia estava na moda, mas nunca conseguiria criar algo que desenrolasse mais do que duas centenas de páginas e que não matasse os pobres leitores de tédio. Coma literário.
Mas ainda me lembrava daquele chaveiro com a cabeça de Edgar Alan Poe e da notícia de sentir aquelas chaves no meu aniversário de 27. Mas aceitar o apartamento era assinar meus votos matrimoniais e isso estava completamente fora de questão. Ou quase.
O que estava martelando na minha cabeça era justamente a ideia de que naquela noite Bruce Campbell, meu suposto noivo, estaria me aguardando para um concerto. Não qualquer concerto, daqueles que se encontra pela cidade num bom dia de sol, mas o concerto do espevitado Luke; que poderia ser qualquer garoto legal no mundo, mas teve o azar de nascer como irmão do meu Carma. "Próspero".
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Orleans
Ficción GeneralKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
