Aquela era a terceira xícara de café que empurrava garganta abaixo sem sentir sabor nenhum. E mesmo que eu me esforçasse, aquele líquido escuro e fervendo lembrava apenas o sabor plástico da máquina de onde tinha saído. Não parecia de longe um expresso, quanto menos uma bebida indicada para alguém na situação em que eu estava.
Já passava das oito da noite e ainda estava sentada naquele banco duro em frente aos guichês da delegacia, vendo o vai e vem de prostitutas, bêbados e policiais enquanto esperava minha vez de depor sobre o que tinha ocorrido no trabalho. Não sei se podia considerar muita sorte ou muito azar, mas não estava sozinha. Próspero estava ali, sentado do outro lado do corredor em um banco idêntico ao meu, olhando fixamente para o pulso que estava muito inchado e vermelho. Um dos policiais tinha conseguido um copo plástico cheio de gelo colorido para ele colocar sobre o inchaço, então era um quadro engraçado ficar tentando imaginar de que sabor era a raspadinha azulada dentro do copo.
Samantha andava de um lado para o outro. Tinha feito quatro ligações para casa, recebido uma meia dúzia de outras e para cada vez que seu celular vibrava lá ia ela, bufando e pisando alto para fora da delegacia para atender. Conseguia escutar como ela estava irritada, não com o incidente, mas por não poder ir pra casa jantar e dormir mais cedo em seu dia de folga do segundo trabalho.
— Sam, — chamei assim que ela voltou resmungando. — Você pode ir embora quando quiser. Eu vou ficar legal. Peço um táxi assim que terminar por aqui.
— Não vai demorar nada, você é a próxima — anunciou o policial dentro do guichê, se metendo na conversa. — Vai querer mais um café?
— Obrigada, estou bem — Não queria dizer que o café tinha gosto de qualquer coisa, então dei um sorriso cansado, meu melhor naquele dia.
— Eu não vou te deixar sozinha, te espero e vamos embora juntas. Já esperei até agora, além do mais o advogado da livraria está chegando. A polícia deve sérias explicações sobre a demora no atendimento depois que o segurança tocou o alarme silencioso quando estranhou o cara dentro da loja.
— Isso poderia ter acontecido em qualquer lugar. O mundo é bem violento hoje em dia.
— Verdade. Você precisa ver como são as coisas lá no meu bairro —Samantha ajeitava os peitos dentro da blusa e acionava seu modo "protetora do bairro". Ninguém teria coragem de mexer com ela naquele humor.
Assim que ela se acomodou ao meu lado, bateu o ombro com o meu e indicou Próspero com o queixo, depois fez um olhar questionador como se eu pudesse resolver alguma coisa. Sem receber resposta, ela pigarreou e depois de aumentar o tom dos pigarreios e quase transformá-los numa tosse crônica, conseguiu atrair um pouco a atenção dele.
Devagar, como se nós duas não valêssemos um centavo do seu tempo, ele ergueu os olhos azuis para nossa direção e aquela insistente sobrancelha esquerda desenhou um arco interrogativo para Sam.
— Então... O senhor também vai depor?
Oh céus, Samantha não faça perguntas óbvias!
— É o que parece. Passar a noite em uma delegacia não é supostamente um passatempo favorito. A senhorita costuma frequentar este local?
Um vinco apareceu na testa de Sam e notei que o canto da boca dela começou a tremer. Pelos longos meses que tinha passado diariamente ao lado dela, sabia exatamente o que aquilo significava: Samantha estava lutando para não dar uma resposta à altura da que tinha recebido (ou acertar aquele nariz empinado com um soco, o que seria bem divertido). O sorriso que estampou era tão falso que seus dentes ficavam por trás dos lábios, rangendo.
— Todas as quartas — Sam alfinetou.
— Que curioso.
Próspero encheu aquela observação de acidez e as palavras soaram de uma forma que carregou sua voz pesadamente britânica. Na verdade, gritava com letras garrafais "Deus salve a Rainha"! E vou fazer um comentário ridículo: aquilo era muito sexy. Não de uma forma vulgar, mas de arrepiar a nuca e trazer um frio esquisito na boca do estômago que não tinha nada a ver com o desconforto que aquele homem tinha causado mais cedo durante aquele vergonhoso atendimento que fiz. Ou tentei.
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Orleans
General FictionKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
