Havia muitos pensamentos na minha cabeça de uma única vez e isso transformava o trabalho de organizá-los em um esforço contínuo e contrário a todo o zumbido do meu coração batendo alto nos meus ouvidos, insistindo para que eu não ficasse automaticamente preocupada com o conteúdo daquelas mensagens no meu celular ou pensando em como Luke estaria naquela cama de hospital. Não, eu estava me permitindo ser orgulhosamente egoísta uma vez na vida, pensando apenas em mim e naquele momento quieto dentro do carro em lento movimento a caminho do Knight's Inn.
Estava autorizada a me apegar a cada pequeno segundo daquele trecho de ruas desertas no cair da noite de York na véspera de natal, observando o inglês mais nariz-empinado da existência dirigir com extrema atenção ao asfalto liso da cidade. E mesmo que ele não olhasse na minha direção (o que eu agradecia muito), sabia que uma pequena parcela dele também prestava atenção em mim apenas de soslaio entre algumas pequenas paradas em cruzamentos e esquinas.
Na verdade, não conseguia evitar o calor no alto das bochechas em relembrar que havia me declarado tão facilmente para ele e recebido uma estranha resposta que misturava certeza, dúvida e uma pitada de ironia — coisa que era de se esperar vinda de Leo. Afinal, não era absurdamente estranho que aquele homem tão detestável tivesse ganhado meu coração quando por tanto tempo acreditei que fosse apenas um imenso obstáculo na minha vida?
— Estava pensando... — contornei o silêncio, enquanto admirava as luzes contra a imensa catedral da cidade.
— Pensando? Devo me preocupar com isso? — ele arqueou a sobrancelha.
— Claro que sim. Sou uma mulher muito perigosa quando penso. Devia me ver depois de horas de meditação sobre qualquer assunto!
— É mesmo? Lembre-se de me avisar quando isso ocorrer. — ironizou.
— Oh, avisarei. Mas o senhor está atrapalhando o meu raciocínio lógico nesse momento. É um pensamento bem importante, sabia?
— Acredito que seja, já que está em silêncio tão absoluto desde que saímos do hospital e isso significa quase dez minutos de imersão em pensamentos. O que de fato, levando em consideração os poucos momentos em que está silenciosa, Katerina, transforma a questão em algo de importância relevante.
— Muito relevante.
Reconheci a rua das pensões quando o carro deslizou por ela, entre as diversas luzes de natal, enfeites, renas e desejos de boas festas espalhados nos jardins cobertos de neve e casas fechadas contra o frio. Leo estacionou perfeitamente diante do portão do Knight's Inn e desligou o motor, respirando fundo antes de se virar na minha direção e esperar que eu completasse a minha ideia.
— Eu estava pensando, — continuei — na verdade era mais uma questão do que uma reflexão. Então estava me perguntando: desde quando isso acontece?
Ele franziu um pouco a testa.
— Isso? — óbvio, eu tinha sido tão precisa quanto um bêbado jogando dardos.
— Isso. O sentimento... — repeti, apontando para ele e para mim. Por favor, não me faça ser mais clara.
Leo mordeu brevemente os lábios e seus olhos focaram em um ponto qualquer no alto do carro, demonstrando que estava pensativo sobre a questão. Voltou a me olhar devagar, como se ainda estivesse pesando os acontecimentos em sua memória.
— Não sei.
— Minha nossa, uma incerteza vindo de você é um tanto aterrorizadora. — sorri, soltando meu cinto de segurança.
— Eu sei. Também é para mim. Mas creio que seja algo entre uma echarpe rosa e uma senhorita Dalton repreendendo a dicção de alguém. Ou talvez sua capacidade em não conseguir ficar em silêncio dentro de um lugar como o Globe.
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Orleans
General FictionKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
