A primeira vez que levei um tombo feio estava com exatamente cinco anos. Uma idade feliz em que sua vida se resume a festas de aniversário, pinturas com guache e muitas lantejoulas. Se tiver sorte, sua professora pode deixar você levar um pedaço de massa de modelar para casa ou alguns gizes de cera. Não tenho muitas lembranças dessa época tão normal da existência, mas tenho uma cicatriz no joelho, que serve para me lembrar do acontecimento infeliz de voar da bicicleta direto para o chão.
Fazia algumas semanas desde que meu aniversário havia passado (porque naquela idade minhas comemorações não tinham sofrido a maldição dos deuses do destino) e eu estava doida para poder usar meu presente fora de casa. Naquele outono incomumente chuvoso, ficamos dias seguidos trancadas dentro de casa, tendo que aceitar que as saídas eram apenas usando capas e botas se não quiséssemos ficar doentes.
Meu pai havia me presenteado com aquela bicicleta depois de muitos pedidos e insistência. Era um modelo de pintura vermelha, com uma cesta de metal e rodinhas de segurança, o cano enfeitado com adesivos de margaridas. Bastaria um dia de sol para poder ostentar orgulhosamente aquelas rodas pela calçada da Rua Baltimore e mostrar para os gêmeos Whiterun que eu não era apenas uma garotinha que não sabia como me manter equilibrada em uma geringonça daquelas.
Por isso, conseguem imaginar a minha euforia quando a chuva pausou e o sol saiu tímido naquela tarde, brincando nas poças de água no asfalto. Dei tantas voltas no quarteirão quanto pude e quando finalmente resolvi subir a pequena rampa para a garagem de casa - um modesto meio degrau que fazia o carro do Sr. Kennedy derrapar às vezes - bastou um deslize para simplesmente me arrebentar no chão.
Não chorei tanto quanto deveria porque minha vergonha de ter caído da bicicleta no meu primeiro dia era tamanha, que me impedia de sair gritando por aí, apontando meu joelho ralado e o dente de leite lascado.
Foi muito difícil curar aquele joelho. Não que minha cicatrização fosse algo digno de um mutante residente da Mansão Xavier, mas também não era das melhores e unimos a isso a minha mania imensa de viver cutucando cada pequena casca que se formava naquelas dobrinhas de pele. Era só começar a coçar (sinal de que estava melhorando, aprendi muitos anos depois) para passar um bom tempo me dedicando a mexer no local como uma verdadeira perita em escavação. Então não é de se admirar que aquilo tenha se transformado em uma ferida inflamada e que no final se tornou uma marca.
No início causava algum transtorno, principalmente no verão, quando decidia usar shorts para tudo. Mas depois passou a fazer parte de mim e clarear ano após ano. Mesmo não sendo tão fácil de vê-la, eu sempre soube que ela estava lá para qualquer um que notasse mais minuciosamente.
Porém, ali estavam outras cicatrizes bem piores do que qualquer tombo de bicicleta com rodinhas. As cicatrizes de Leo.
Eram mais claras do que as minhas, já que não se tratava de joelhos ralados, muito mais do que aquele risco branco pálido que notei em seu pulso pouco antes e estava escancarada diante de mim, na frente dos meus olhos.
Leopold tinha uma noiva e ela estava morta.
Não sei exatamente qual era a minha expressão. Aquela revelação era muito profunda, mais do que imaginei que ouviria quando fiz aquela quase pergunta infeliz e agora não sabia lidar com aquilo, como uma criança que brinca de batata quente pela primeira vez e não sabe para quem jogar em seguida.
Tudo que eu sabia era sentir meu coração batendo como um tambor nas orelhas e um espaço vago onde ele deveria estar. Nem mesmo o frio intenso que vinha das janelas chegava a se igualar com a sensação térmica dentro de mim.
Eu poderia chorar (e talvez fosse o mais humano a se fazer), mas minha mente só conseguia tentar analisar aquela frase o mais rápido possível, dando sentido às coisas que envolviam aquele inglês que ainda me segurava nos braços, mesmo que seus olhos estivessem tão distantes agora.
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Orleans
Fiction généraleKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
