Capítulo Extra: You are my Sunshine

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Shakespeare era um homem sábio. Disso não tenho dúvida alguma. Olhe só o tamanho da biblioteca que seus livros podem montar quando colocados um do lado do outro, repletos de romances, com direito a risadas e lágrimas, aventuras e tragédias, ensinamentos e poesias. Mas sabe uma coisa que "O Homem" sempre conseguiu ganhar na minha admiração? Ele parecia conhecer muito bem, de todas as formas, o coração das pessoas.

Tudo bem, eu não sou nenhum conhecedor sábio escritor imortalizado por todas as eras da humanidade. Mas admito que sei uma coisa ou outra, nada de mais, nada incrível - sobre o coração - principalmente daqueles mais próximos de mim.

Por exemplo: quando Lucylle Candace, minha professora de aulas extras de violino, teve uma crise de paixonite injustificada por Clarence Jonhson, o jardineiro australiano que minha mãe contratou na ausência de Leo; fui o primeiro a notar. Claro que a senhorita Candace não era lá muito discreta, mas era reconhecível o modo como os lábios dela se comprimiam naquele batom gasto cor de rosa que insistia em usar nas nossas aulas de todas as terças.

Ela não era mais tão jovem, nem tão velha, mas tinha alcançando aquela idade que algumas mulheres mais tradicionais costumam estampar certo desespero em ser amorosamente correspondidas. O problema não era exatamente esse, afinal o senhor Johnson também me parecia bem desesperado, principalmente quando se encontravam nas escadarias e ele não sabia onde esconder as mãos com unhas encardidas de terra.

Sabe, unhas encardidas de terra são um troféu particular muito comum entre amantes da jardinagem. A não ser que você seja uma senhorita. Nesse caso em particular, unhas pintadas com cores fortes são altamente recomendadas - ou pelo menos, é o que minha mãe diz. "Nunca se sabe quando uma visita para o chá pode aparecer enquanto se afofa um saco de esterco ao redor de petúnias preciosas, não é?"

Não que eu não goste de senhoritas. Ou de petúnias. Vocês entenderam.

A questão é que, quando percebi o desarranjo entre aquele possível casal desencontrado que estava frequentando minha casa, achei que tinha de tomar uma decisão para o bem de todos. Sigam o meu raciocínio:

Todas as terças a partir das dezesseis horas, a senhorita Candace chegava de táxi até a frente das escadas de casa e enquanto pagava suas oito libras pela viagem, procurava com o canto dos olhos entre as touceiras e arbustos, além das cercas vivas e do gramado até encontrar o claro sinal de que o senhor Johnson estava por ali. Então ocasionalmente eles trocavam um olhar, um meio sorriso, um aceno desajeitado, ela pegava suas coisas e subia os degraus para passar o restante de suas próximas enfadonhas duas horas comigo.

Não me considero enfadonho, ao inverso. Mas era bem claro que a senhorita Candace me achava a coisa mais tediosa e difícil de aturar em toda sua vida, visto que seu olhar sempre se perdia pela janela da sala de música e algumas vezes eu podia errar muito mais de cinco notas seguidas antes que ela notasse que eu ainda respirava no mesmo ambiente que ela.

Por isso, decididamente, era a hora de começar a fazer as coisas funcionarem.

Entendam: eu realmente me orgulho muito das minhas habilidades discretas em conseguir algumas coisas que quero. Como por exemplo, fazer Leo me trazer torta de nozes quando passa pela cozinha ou minha mãe se lembrar "por acaso" de que preciso de um conjunto de cordas novas. E dentre as minhas habilidades ocultas posso citar a querida "HARECA": Habilidade Adorável de Reunir Entusiasticamente Corações Apaixonados.

Sim, fui eu quem batizou assim. Não tinha coisa melhor, caso perguntem, mas Collins insiste que na época dele as pessoas me chamariam de casamenteiro. Técnico em HARECA soa muito melhor.

Meu plano foi bem simples: nas semanas seguintes, todas as minhas aulas extras de violino seriam recebidas no pequeno coreto perto das estufas, exatamente no caminho depois do jardim principal e primordialmente antes da entrada para a cozinha. Um lugar perfeito para uma fuga rápida e um encontro quase ao acaso.

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