O que se pode esperar de alguém que é despejada em pleno dia de natal? Ou melhor, qual a previsão para o fim de ano de um ser humano que consegue perder mais coisas na vida do que ganhar?
Eu precisava me benzer, definitivamente.
Estava deitada com as costas contra as costas de Leo quando terminei de ler aquela mensagem de Sam. Meu coração doeu, meu estômago revirou, meus pés ficaram gelados e tudo que consegui fazer foi morder o indicador para não começar a chorar. Eu tinha o direito de chorar.
Mesmo na paz do Knight's Inn, dividindo uma cama com Leopold D'Orleans, minha vida continuava me surpreendendo e forçando para que as coisas mais improváveis acontecessem. O que me lembrava da tia Macy recitando a bíblia em uma das noites de Ação de Graças na minha infância, dizendo que tudo acontece por uma razão e que Deus tem um plano para todos nós.
Naquele momento, eu estava mais determinada a acreditar que Deus era um míope com sérios problemas de humor e tendência a piadas com um tipo muito peculiar de sarcasmo ácido contra mim.
Respirei fundo antes de deixar as cobertas para trás e sair da cama para andar pelo quarto, digitando uma dúzia de respostas para Samantha e enviando uma enxurrada de perguntas para Adria. Me sentei em uma cadeira ao lado da janela e fiquei observando a neve cair sobre York enquanto meu reflexo no vidro era um borrão iluminado pelo visor do celular enquanto a madrugada passava.
No colchão, semicoberto pelo edredom floral da pensão, Próspero dormia pesadamente e admirá-lo daquela forma tão inofensiva, distante de comentários irônicos, sobrancelhas arqueadas, citações de Shakespeare e modo Britanicus Raptores, era uma visão que me ajudava a afastar minha gritante ansiedade. Ainda era surreal ter aquele homem tão perto sem precisar me preocupar com as possíveis farpas que trocaríamos ou como deveria me portar. Era ainda mais surpreendente lembrar que meu maior carma do universo, agora só trocava beijos comigo — coisa que eu não sonharia que pudesse acontecer nem mesmo durante o Apocalipse.
Olhar para Leo me deixava com um sorriso bobo no canto da boca e desejando estar em algum lugar em que pudesse trazer um chá earl grey para ele pela manhã. Será que o Sr. Valois teria aceitado dividir minha humilde cama naquele apartamento em Nova Iorque?
Quer dizer... Se eu ainda tivesse um apartamento.
Naquele instante pouco iluminado da madrugada quase terminando lá fora, me peguei repensando nas minhas prováveis opções para desmantelar meus problemas, exatamente quando o visor do celular se acendeu, avisando novas mensagens.
Samantha repetiu mais de cinco vezes que eu deveria me acalmar, que todas minhas coisas estavam seguras e que eu não devia me matar de preocupação nos meus últimos dias de viagem. Reforçou que de nada adiantaria qualquer tipo de desespero e tomou as rédeas da situação, afirmando que estava levando meu colchão e algumas coisas para a casa dela — onde poderia ficar até que tudo se ajeitasse. Mas o pequeno detalhe de que Sam sequer perguntou qualquer coisa sobre o Carma ou York, já servia de alerta sobre a situação.
A senhorita Russell normalmente não perderia a chance de dizer uma coisa ou duas sobre minha ausência natalina, portanto eu sabia que Sam estava muito preocupada e provavelmente apenas tentando me acalmar do outro lado do oceano. Afinal, ela me conhecia bem o bastante para saber que eu estava quase surtando e que bastaria o dia raiar para ligar para ela.
Sim, eu estava surtando. E acredito que tinha muita razão nisso depois dos últimos dias.
Lentamente, sem que eu notasse de cara, Leo se moveu na cama. Seu corpo mudou de posição e seus braços puxaram um dos travesseiros para perto, até que devagar ele abrisse os olhos, espiando entre fronhas lençóis e edredom. Olhou o canto do quarto e a porta, depois arriscou as janelas, encontrando o olhar com o meu.
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Orleans
General FictionKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
