Admito que nunca me achei uma pessoa muito esperta. Na verdade, nada esperta com o passar dos anos, mas particularmente bem burra nos últimos dias ou pelo menos é o que o acontecimento das últimas horas não me deixava duvidar.
Acreditem só que eu, Katerina Emily Dalton, tão soberba de minhas qualidades intelectuais — embora nem tanto das minhas atividades motoras — consegui ignorar todos os claros sinais de que as mensagens que recebi pelo celular, eram de fato, do detestável Carma que me cobra nesta vida. Vergonhoso.
Quem mais em todo este mundo habitado teria a capacidade de me enviar um trecho de "A Tempestade" em plena noite londrina, apenas para responder uma pergunta tão banal quanto a minha? Com certeza não seria nenhum costume dos ingleses, não é? Duvido muito que todos fossem versados em Shakespeare ou respondessem perguntas com trechos misteriosos de algumas obras e sonetos.
Claro que não!
Na verdade deveria ter percebido logo que recebi aquela repreensão sobre estar digitando e não falando. Se tivesse prestado atenção nessa pequena réplica, teria me poupado a dor nos pés por ter corrido para o hotel, além de estar com fome e sem poder jantar absolutamente nada no Bristol.
Ah, a fome. Se o celular não estivesse ligado à tomada e com apenas alguns porcentos de bateria, certamente teria replicado uma mensagem bem sem educação para aquele inglês absurdamente arrogante e prepotente. Ele merecia sofrer o inferno da culpa de saber que me deixou faminta no meu quarto de hotel, a mercê do destino, sem nenhuma mísera chance de ir até o restaurante — que naquele horário estava fechado — pelo infortúnio que me causou.
Okay, ele responderia claramente que o problema era meu. Não exatamente com essas palavras, mas algo parecido com "Isso não é do meu interesse, senhorita Dalton" ou "A senhorita é muito descuidada, senhorita Dalton". Eu bem que merecia escutar isso.
Obviamente eu poderia pegar o telefone e interfonar na recepção para pedir o número de algum delivery decente nos arredores. Também poderia bancar a rebelde e voltar a caminhar pelas ruas da cidade em busca de alguma aventura que incluísse comida quente de qualquer espécime. Ouvi falar que os ingleses têm restaurantes indianos maravilhosos, mas convenhamos que meu humor não me auxiliaria a nenhuma caminhada intrépida para conseguir qualquer coisa banhada em curry.
Terminei aceitando o meu destino da noite e trocando minhas roupas novas por um pijama bem quente e confortável que parecia dois números maiores do que qualquer coisa minha. As meias não eram opcionais e vinham bem a calhar nos pés mesmo que a suíte estivesse bem aquecida enquanto tentava parar de pensar apertando os botões do controle remoto da tevê. Tinha de assumir que não conseguiria dormir de estômago vazio.
Liguei para a recepção e fui muito bem atendida pela telefonista, que informou que o hotel dispunha de uma cozinha 24 horas e que eu poderia pedir qualquer coisa do serviço de quarto. Foi difícil decidir entre o cardápio todo ou apenas metade, mas me satisfiz com um sanduiche de queijo e um copo de leite quente para ajudar o sono a vir.
Sim, estava com insônia. E isso era uma novidade porque depois de uma longa viagem e um dia agitado, deveria desmaiar em segundos.
Mesmo soterrada com cobertores quentinhos, rodeada de almofadas macias e contando com tevê a cabo, frigobar e uma vista maravilhosa da janela; o sono parecia decidido a me presentear com um par de lindas olheiras na manhã seguinte. Já era a décima vez que revirava na cama sem encontrar um lugar confortável. Alguma coisa estava me preocupando?
Comecei a revisar todas as coisas que tinha feito antes de sair de casa, bobeiras como fechar as janelas, deixar as chaves e Tabby com Samantha, desligar o gás, apagar as luzes. Até imaginei que devia ter deixado alguma conta prestes a vencer, mas Lex havia pagado tudo pela internet um dia antes da minha viagem.
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Orleans
Ficção GeralKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
