Algumas informações durante a vida deveriam ser guardadas apenas para si, como certos segredos, manias, mentiras e vergonhas. E eu adicionaria na lista com uma clara seta de neon: "detalhes malucos da família Dalton", talvez com uma nota de rodapé dando pequenos exemplos práticos para manter qualquer ser humano com um mínimo de juízo a um continente de distância. Devia bastar.
O problema é que Viola Dalton, conhecida vulgarmente como "Avó", não tinha esse tipo de opinião. Segundo ela e seus olhos ferinos, Katerina Emily Dalton tinha de saber sobre tudo que rodeou sua pequena, infeliz e manipulada vida até aquele momento estranho e familiar na sala de jantar de pelo menos três gerações de antepassados. Ela ignorava o fato de que sua última frase tinha me acertado como um soco de direita e fazia meu estômago dar voltas e meu cérebro gritar silenciosamente tentando acertar as peças do quebra-cabeça esquisito que tinha o desprazer de chamar de vida.
Não se tratava do escândalo ou da sexualidade do meu outro suposto futuro-ex-noivo, mas a clara realidade de que a imagem do rosto sorridente de cabelos pink não saia de dentro da minha mente. E aquilo só afirmava a sensação que tinha me perseguido durante aquele curto encontro na noite de réveillon.
Não era a toa que havia reconhecido estranhamente aquele homem de bigode lustroso que estava com Max no meio da multidão; eu havia visto aquele rosto mais jovem no retrato que derrubei dentro da casa de Dolores Fighbright, o homem do casal que entre sorrisos se abraçava naquela moldura. Não tinha dúvidas de que aqueles eram os avós paternos dele, claramente os Davison.
- Foi por conta desse pequeno problema contido que decidimos acatar a decisão de sua mãe e como não havia coisa melhor, nem outra opção a vista, tive que aturar o pai do jovem e suas dezenas de aporrinhes e chateações com essa bendita junção de empresas. Ainda mais recentemente, depois da sua negativa e das novidades da Inglaterra.
Uma parte de tudo que Viola estava dizendo passou despercebida dos meus ouvidos até a palavra "Inglaterra", que foi quando nossos olhos se encontraram e tive uma pequena turbulência do outro lado do estômago com o calafrio que percorreu minhas costas assim que percebi o sorriso estranho no canto da boca de minha avó.
- Novidades?
- Sobre sua viagem. Soube que passou as festas na Europa, mais precisamente em uma cidade nortenha chamada York. Estou errada? Quer acrescentar algo, Katerina?
- Não. Pelo visto a senhora está bem informada. O Sr. Campbell a deixou a par da minha viagem ou foi meu pai?
Minha dedução fez Viola rir enquanto a porta da sala de jantar foi aberta por Florence junto de um carrinho trazendo um bule quente e xícaras para o chá de gengibre, mas não trocamos mais palavras até a governanta nos servir e sair silenciosamente por onde entrou. Então era com minha avó que o pai de Bruce havia falado naquela tarde e se informado sobre toda a situação que estava acontecendo com meu pai e a família.
- Você não é tão boba quanto eu pensei. Pode ser que você ainda me surpreenda, Katerina. Foi George Campbell que desprendeu um bom tempo e energia da minha tarde de véspera de natal, balbuciando, resmungando e amaldiçoando as suas mais notáveis decisões. Pelo visto você decidiu escolher outro rapaz, exatamente um desafeto da família Campbell. Esperta. Na realidade, não esperava que você fosse tão ardilosa assim.
- "Ardilosa"? A senhora está pensando que eu fiz algo de propósito?
- E não fez? - ela me consultou por sobre a xícara entre um gole e outro.
- Mas é claro que não. Viajei para a Inglaterra por vontade própria e se acabei no meio dessa contenda ridícula, foi inicialmente por culpa de vocês. Foi uma imensa coincidência se conheci o Sr. Valois e...
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Orleans
Fiction GénéraleKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
