Quatro da manhã. Adria falava pelos cotovelos enquanto atravessávamos as avenidas a caminho do aeroporto JFK. Mal conseguia olhar pela janela sem encostar a testa no vidro e bocejar, observando os carros pela madrugada.
Mal tive tempo de trocar aquele vestido úmido e manchado, cheirando a café e chocolate misturado com um pouco de perfume que ainda existia em mim e eu mal sabia se era meu, do carro ou do maldito Sr. Campbell. Só estava respirando enfiada dentro do sobretudo de zebra que Adria jurou mil vezes que combinava perfeitamente com a minha pele.
Enquanto minha irmã divagava sobre reformas que eu deveria fazer no porão, formas de restaurar meu vestido e melhoras nas minhas habilidades como maquiadora; eu só conseguia pensar em quão improvável havia se tornado meu final de sexta-feira.
No meio daquela chuva digna de uma produção hollywoodiana sobre Nova Iorque, em uma noite de um dia qualquer, Katerina Dalton ficou na mais estranha situação desde seu aniversário de 27 anos com direito a um apartamento e um noivo embrulhado para presente.
Tive um arrepio ao me lembrar daquele momento, parada na chuva recebendo uma echarpe rosa ensopada das mãos de um Próspero que me salvou (pela terceira vez em seguida, um recorde!) de um acontecimento terrível ocasionado pelas minhas más decisões nesta vida.
Sim. Por mais que eu não queira assumir, aquele desastroso beijo do Sr. Campbell entraria facilmente para o hall de "maiores escolhas terríveis já cometidas em minha existência". Ou seja, não me perdoaria se tivesse realmente acontecido e devia minha pouca dignidade e bem estar ao meu insuportável herói: o Carma. E graças ao destino cósmico — o ordinário que continuava demonstrando que minha vida era uma sucessão de erros infindáveis — minha noite até aquele momento dentro do táxi cheirando a patchouli a caminho do JFK, tinha mais algumas surpresas.
Defina "situação estranha". Agora pense duas vezes sobre sua definição e saiba que não chegou nem mesmo aos pés do momento que eu vivi.
A chuva torrencial ainda caía sobre Nova Iorque e parecia bem decidida em perdurar através da madrugada, sem um minuto de calmaria. Aquele friozinho bom entrando pela porta do porão da Sra. Fighbright, alguns respingos molhando o capacho da frente e Katerina Emily Dalton sentada em uma banqueta entre um ensopado Próspero e um emudecido Sr. Campbell. Não era de se admirar a ruga que a testa de Adria estava formando enquanto passava as xícaras de chá quente para todos (que por pouco não cabíamos dentro do meu humilde lar).
— Então... — Adria pigarreou. — Como foi o concerto?
— Ótimo — tratei de responder rápido enquanto aceitava uma caneca de ursinho, a única coisa sobrando para se servir um chá àquela hora da noite. Nunca esperei visitas, quanto menos numa situação assim.
— Sei. E o seu vestido...
— Foi um acidente. Grande parte por minha culpa, mas já me coloquei a disposição de Katerina para arrumar outro vestido conforme ela quiser. — Bruce recebeu apenas olhares e silêncio por alguns segundos antes de Adria realizar que o vestido que ela havia pessoalmente arrumado, estava parcialmente arruinado.
Consultei Próspero com o canto dos olhos, mas a única coisa que ele se limitou a fazer foi girar a colher dentro de sua xícara de chá de ervas.
— O senhor tem consciência de que esse vestido é um Burberry original, que me custou um bom tempo em conseguir para a minha irmã? E que agora está manchado, maculado e ensopado por conta de um acidente?
Minha irmã. Importando-se com vestidos antes das pessoas desde sempre.
— Senhorita Dalton, — Bruce deixou sua xícara sobre uma das pilhas de livros e respirou profundamente — eu realmente sinto muito. Não será problema algum em conseguir um idêntico para Kate. Se ela quiser, claro.
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Orleans
General FictionKaterina Dalton nasceu com algumas maldições: os genes azarados de sua família, um casamento arranjado e aniversários fracassados. Decidida a resolver pelo menos um de seus problemas, ela foge da ultrapassada tradição familiar para reiniciar na gran...
