Capítulo 2 - O que eu não sabia

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-- Sua mãe tem ensinado isso a você desde quando?

Ela perguntou, suavemente, na tentativa de apaziguar a ira que subia como um bólido em meu corpo. Sua voz, além de suave, era resignada.

-- Desde sempre e sempre falou que era nosso segredo. Não tem um dia de minha vida, que não passe pelo menos três horas do dia com a minha mãe e você sabe disso. No início, ela me colocava em seu colo e era como se fossem contos, mais tarde ela passou a dizer que, um dia, precisaria muito e que o reino dependeria do que eu soubesse dele, mas... – Inspirei fundo. -- mas, há alguns anos, ela passou a responder minhas perguntas através de enigmas. No início me incomodava muito, porém depois, passei a pesquisar na biblioteca central do reino, coisas que falava e eu não compreendia muito.

-- Por isso transformou minha vida num eterno marasmo. – A Tenente-Coronel sorriu. -- Duas horas antes de amanhecer eu ficava plantada, vendo-a ler livros e livros na biblioteca; depois, quatro horas assistindo você treinar com o Mestre de Armas. "Grande Espaço Celeste"! Como eu queria estar no lugar do Mestre! Assim, pelo menos eu exercitava um pouco...

Eu não consegui me conter e sorri para ela. Arítes rodava a taça de vinho vendo o líquido mover, e em seu rosto, se figurava um ar melancólico. Não a interrompi em seus pensamentos. Estava ávida por ouvi-la.

-- Após o almoço, você fazia as suas caminhadas pelas terras. Ia até o rio ou cavalgava pela floresta até o lago. Eram momentos bons para mim, pois respirava um pouco também.

-- Você é filha da floresta. Percebia que se refazia também. Seu rosto abranda quando cavalgamos até o lago.

Pontuei e ela me sorriu.

-- No retorno trancava-se com "a comandante" por horas e era quando ia aos meus afazeres pessoais ou do exército.

-- Pelo menos, dispenso você cedo. Não deve se recolher tarde para dormir...

Peguei-a. Ela titubeou. Seus olhos contraíram e escureceram qual floresta em dias chuvosos. A apreensão voltou a enrijecer seus ombros. Minha mãe esmerou-se em me ensinar os sinais que cada corpo apresentava diante de situações. Calei-me, apenas observando.

-- Eu durmo, no máximo, cinco horas por noite, Tália. Às vezes, até menos.

Continuei calada, esperando-a concluir. Ela, outra vez, inspirou fundo. Ali havia um segredo.

-- Desde muito cedo, assim que ingressei para Escola de Armas, sua mãe veio até mim. Eu era nova, tinha apenas doze anos. Ela me disse que ensinaria tudo que ela sabia, mas com uma condição; que não revelasse a mais ninguém. Eu sempre a admirei como comandante e ainda a admiro muito, mas... Mas isto me fez retrair. – Ela suspirou mais uma vez. -- Um dia, falei que sentia sua falta... ela me disse que bastava ver dentro do meu coração, que você estaria lá. Que havia um propósito e que eu fazia parte de seu destino. Pouco tempo depois, quando já era tenente, fui designada para sua proteção, Tália. Fiquei feliz, mas ao mesmo tempo, sabia que não tinha mais volta. Não podia arriscar sua segurança por minha vontade de ter sua amizade.

-- Mas por que arriscaria minha segurança?

-- Porque eu já compreendia o meu papel no destino. Sua mãe passou a me ensinar, além das artes da guerra, a história de nossos ancestrais. A história dos descendentes da floresta e dos descendentes do lago...

-- Eu também a conheço e....

-- Não! Você não conhece. Você conhece o que leu na nossa biblioteca e eu... eu tive os Escri...

Ela suspirou novamente e tinha a voz embargada. Olhei seu semblante abatido e sua expressão de assombro. Deixou que seus ombros relaxassem em desânimo. Algo estalou em minha mente.

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