Barreiras Desprotegidas (16)

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Eu poderia ser comparado à uma pessoa que acabara de descobrir o que é comida depois de ter ficado preso em uma ilha deserta. O gosto da gororóba estava melhor do que no dia em que a provei pela primeira vez. Eu estava esfomeado depois de ter gasto tanta energia naquela luta.

- Vai com calma aí, animal silvestre. - Selina exclama com os olhos estalados de me ver comer.

- Acho melhor você parar de comer, sou eu quem divido a cela com você e não estou nem um pouco a fim de ver o que isso causará a você no banheiro. - Max fala estupefato com o quanto eu comia.

Paro de comer assim que vejo que o pote estava vazio e respiro fundo. Eu realmente estava com fome, tanto que se fosse outro, provavelmente, nem comeria aquela coisa que chamamos de comida.

- Vai comer o seu? -aponto para a bandeja à frente de Max.

Ele, em seguida, empurra a bandeja em minha direção e eu volto a comer. Eu sabia que alguns mutantes estavam me olhando e comentando em sussurros o quão desagradável era a imagem que estavam presenciando.

- Aposto que ele vai pedir o que sobrou da minha gororóba também. - Selina aproxima seu rosto do ouvido do Max e sussurra.

- Apostado. -ele responde dando início à mais uma aposta.

Durante todo esse tempo, recebi várias frases do tipo: "Parabéns, Clark", "Olha o garoto prodígio" e "Me lembre de nunca pisar no seu calo." Alguns ainda se sentiam inseguros perto de mim por causa do ocorrido com aquele garoto no refeitório. Eu quase nem lembrava daquilo com tudo o que acontecia comigo.

Com essa minha nova fase de fama por causa do dia anterior, pude perceber que uma pessoa não estava gostando nem um pouco disso: Steven. O garoto que se achava o gostosão de toda a PPG. Desde que eu me sentei para almoçar, ele continuava me olhando como se estivesse prestes a me matar, um olhar raivoso. Tudo bem que ele não poderia fazer nada com todas aquelas pessoas olhando, mas era melhor ficar na minha.

Hoje o refeitório estava quieto, diferente do normal. Alguns Ghramers estavam conversando, mas não era a mesma coisa. Toda aquela animação, aquele sentimento de nostalgia que todos estampavam em suas caras, deixando disfarçar o verdadeiro final de suas caminhadas.

Quando chega em minha última colherada da gororóba que me distraía, um grande estrondo invade o vácuo no ar, chamando minha atenção e de quem estava em volta. Não sabia a origem desse tal barulho, mas uma onda de Ghramers estava se dirigindo no que, provavelmente, era o ponto de fuga da situação.

Eu, junto de Selina e Max, segui o caminho em que todos começavam a discutir sobre, deixando o clima mais estranho do que antes. Com muito esforço consegui ficar na frente dos mutantes que pareciam estar formando aquela típica rodinha de briga infantil na escola.

A imagem do que obviamente era o assunto não me deixou mais assustado que os outros pois já passara por aquilo. Uma garota estava jogada no chão, com seu pescoço virado -provavelmente quebrado- com um líquido que escorria da sua boca. Ela parecia estar igual ao garoto do qual eu havia matado por proteção. Sua pele estava pálida, com algumas veias visíveis; alguns fios de cabelos grudavam em seu rosto molhado pelo suor. Seus olhos demonstravam a pura escuridão tomando conta de um brilho ofuscado.

Um garoto, que poderia ter sido a vítima, estava com a bandeja em mãos. Talvez tenha sido aquilo a causa daquele estrondo. Ele estava com a respiração ofegante e poucos sinais de agressão, como marcas vermelhas no pescoço e arranhões nos braços.

- Vocês estão vendo? Só foi esse otário chegar na Prisão que tudo começou a acontecer. - Steven começou a profetizar sábias palavras de idiotice. Ele acabara de tomar proveito de uma situação delicada para me encriminar. - Ele com certeza está trabalhando para o Sr. Black, espionando cada um de nós.

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