Seleção (18)

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Eu perdi a noção do tempo que passara depois que contei, aproximadamente, umas duas horas observando a mesma coisa. Não dava para perceber o tempo corrido que se esgotava dentro da Prisão e que nunca mais poderia ser recuperado. Tempo. Algo que muitos não valorizam. Dizem que ele pode ser considerado como uma grandeza escalar, mas não podemos dizer a quantidade de tempo que temos até o final de nossas vidas. Queria saber se eu aproveitei o meu tempo antes de ter parado no lugar onde agora eu me encontro.

Eu observava aquela foto como se não existisse nada em minha volta. Eu me encontro completamente paralisado mentalmente na cadeira, pensando sobre o que o garoto da cela vizinha tinha sugerido por códigos. "Justiça". Será que aquilo tinha alguma ligação com o porquê do símbolo na foto e nos uniformes dos guardas? Se isso fosse o que chamam de justiça, eu nem queria ver o que seria a injustiça.

Max dormia na cama ao meu lado, produzindo o seu ronco estrondoso como sempre. Talvez ele era um dos animais geneticamente modificadas que ele disse que ficavam na floresta, onde ele quase morreu. As lembranças daquele dia se passaram em minha cabeça, como um filme no modo acelerado. Consequentemente, o pesar da morte daquela garota que se foi em meus braços me atingiu. Sua alma tivera como último descanso meu colo. Imagino se ela encontrara a paz no lugar onde agora brinca com as estrelas e os cosmos, saltitando felizmente com seus amigos que morreram junto a ela.

- Você ainda tá sentado? -Max exala seu bafo de manhã em minha direção, o que me faz lacrimejar.

- Já pode ir escovar os dentes, por favor. -falo colocando a mão no rosto, para evitar de exalar o mesmo cheiro de antes.

Max ri de um jeito sonolento, típico de quem acabou de acordar. Ele se levanta e vai direto ao banheiro, começar a colocar sua higiene matinal em perfeita condição, coisa que eu fizera depois de ter pedido a concepção de que passei a noite inteira sentado na cadeira. Fixo no móvel.

O tempo se passou e Max, finalmente, sai do banheiro, mais considerado um cubículo. Ele colocou sua roupa no compartimento onde as peças sujas ficavam e se sentou na cama. Olhando para mim com uma cara de quem esperava uma resposta. Meus olhos semicerraram assim que percebi sua feição sob mim, o que logo mudou assim que perguntei o que ele queria.

- Você está estranho. Ficou sentado aí a noite inteira, nem dormiu. Tá achando que é um morcego?

- Não, só não estava com sono. Eu fiquei refletindo sobre algumas coisas.

- Sobre o que?

- Sobre o tempo, principalmente. Como ele é algo extraordinário e ao mesmo tempo uma incógnita em uma equação mal resolvida.

- Uau... profundo. Chegou a tocar a alma. -Ele profana suas palavras irônicas com uma cara de quem estava emocionado.

Eu retribuo com uma risada completamente sarcástica. Um guarda aparece na porta da nossa cela, colocando duas algemas no mesmo lugar de sempre. Algo que era normal na PPG, não depois de termos perdido o direito de ir ao refeitório. Max tentou perguntar ao guarda o que iria acontecer, porém ele não se deu ao trabalho de respondê-lo. Apenas disse para nos apressarmos. Colocamos as algemas e fomos acompanhados até o refeitório, onde se encontrava uma fila indiana de outros Ghramers algemados. Todos estavam confusos com o que estava acontecendo, inclusive eu.

A porta onde o homem de traje social usou para sair do refeitório no dia anterior estava semi-aberta, deixando transparecer apenas o escuro do outro lado. Daquele mesmo cenário preto, saira uma mulher cujo salto alto preto, completamente polido, produzia aquele som típico do sapato. Toc toc toc. Depois que ela passou pela porta, dois guardas tiravam um Ghramer, aparentemente desmaiado. Ele estava molhado, não dava para dizer se aquilo era água ou suor. Eles seguiram sua rota até o corredor das celas. Todos começaram a ficar amedrontados com o que poderia acontecer com eles.

A mulher, que segurava algum aparelho tecnológico em mãos, selecionou mais dois mutantes da fila que, ao decorrer do tempo, se tornava cada vez menor. Os guardas voltaram e agarraram o braço das pessoas escolhidas, levando-as para o que havia após aquela porta.

- Não! Eu não quero ir, por favor. Por favor, não me machuquem, por favor. -Uma menina grita desesperada, tentando se desprender das mãos musculosas do guarda. Assim que consegue, ela escapa em direção ao corredor, porém é impedida pelo segurança, que a imobiliza no chão e injeta algo em seu braço com uma seringa que pegara de seu cinto. Ele a levanta, fraca e impossibilitada de fugir, e volta a adentrar a escuridão.

- Anotado? Não tente escapar. - Max olha para mim, sem transparecer o medo em seu semblante.

- Como você pode ficar tranquilo com tudo isso?

- Na verdade, estou morrendo de medo por dentro. Mas como você pôde observar, só um vai voltar. É só você tentar ser essa pessoa e tudo ficará bem... eu acho.

Olho para frente e vejo que ele era o segundo da fila, ou seja, ele seria o próximo a ser chamado. Logo a minha trás, um garoto do qual não fazia ideia de quem era, sussurrava para a pessoa de trás trocar de lugar com ele, pois estava com medo de ser selecionado comigo.

A mulher volta para o refeitório, que aliás, não possuía mais nenhuma das mesas de antes. O lugar se encontrava completamente fútil e incolor. Quando volto a prestar atenção, Max acabar de entrar pela porta, se juntando a escuridão. Eu não parava de pensar no que aconteceria caso não fosse ele quem voltasse para a cela. Eu não podia viver sabendo que Max não estaria ali pra me acompanhar até o final de tudo.

O tempo parecia não passar agora, como se eu estivesse preso ao mesmo segundo em que não  vi mais a imagem dele.

Depois de alguns minutos demorados, a mulher vestida com um jaleco branco e óculos saiu da porta. Podia sentir o meu coração parar de bater por segundos, pois os guardas saíram sem carregar alguém. Eu não podia deixar de pensar na pior das hipóteses.

- Espero que seja mais forte que seu amigo. -A voz da mulher penetra meus ouvidos, deixando-me mais apavorado do que estava.

- O que vocês fizeram com ele? -Eu podia sentir as lágrimas se formando em meus olhos. Por impulso, me jogo em cima dela e uso minhas mãos para enforcá-la. Eu estava sendo dominado pela raiva, e ver ela ficando vermelha e sem ar não aliviava aquilo.

- Você vai fazer isso comigo, Clark? Por quê? -ela fala com sua voz fraca. Antes que eu possa respondê-la, algo é injetado em mim, provavelmente um sedativo para acalmar os mutantes que se revoltariam durante o recesso deles.

Aos poucos vou soltando o pescoço dela. Tudo parecia ficar borrado em minha frente. Senti os guardas me levantarem. A mulher se recompõe e arruma sua roupa e seu cabelo, que ficaram bagunçados por minha causa. Seu pescoço estava marcado por uma vermelhidão visível.

- Levem-no daqui. Estão esperando o que? -os guardas começam a me levar em direção a porta que era a entrada do que poderia ser minha morte. E assim, surge a escuridão.

*

CONTINUA...

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