Capítulo 17 - Tomás

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Era um daqueles domingos barulhentos e cheios de gente — o tipo de evento que me fazia pensar duas vezes antes de aceitar um convite. Mas Stephanie me arrastou com aquele discurso de “minha família precisa ver que você existe, Tomás”, como se eu fosse um Pokémon raro. E, bem… como dizer não?

A casa da dona Edna estava fervendo. Literalmente. O calor do fogão era o mesmo que de um vulcão prestes a entrar em erupção, e a mulher, incansável, mexia três panelas ao mesmo tempo enquanto gritava ordens para Stephanie como se fosse sargento de cozinha.

— Steph, pega o coentro na geladeira! —
— Mãe, coentro não, né?
— Não me faz te lembrar que essa receita é do seu pai e ele gosta com coentro!

Stephanie revirou os olhos e foi. E eu fiquei plantado no canto da sala com uma cerveja na mão, cercado por crianças, cadeiras de plástico e aquele cheiro de comida boa que sobe da panela e faz o estômago roncar.

Caio e Clarice estavam sentados com os dois filhos: a pequena Alice, que agora falava pelos cotovelos e não largava uma boneca de pano, e o recém-nascido Alec, que dormia tranquilo no carrinho como se estivesse em um spa particular. Invejei a paz dele por um segundo.

— Então você é o Tomás, né? —
A voz veio do meu lado. Virei e dei de cara com um senhor de bigode espesso, com uma cerveja na mão e um sorrisinho cínico. — O irmão do meu pai — me disse Stephanie antes, com uma careta de “boa sorte”.

— Sim, sou eu — respondi, educado, estendendo a mão.

Ele ignorou completamente meu gesto.

— Ouvi dizer que você é advogado. E tá com a minha sobrinha. É tipo uma promoção dupla, né?

Dei uma risadinha sem graça, mais por reflexo do que por achar minimamente engraçado. Esse era o tio insuportável, confirmado. Toda família tem um.

— A gente tá muito feliz — falei. — E aguardando ansiosamente a chegada do bebê.

— Ah, sim. Mais uma boca pra alimentar. E você vai criar como? Com esses cabelos de artista e essa cara de quem acorda às onze?

Antes que eu pudesse responder, Stephanie apareceu do nada, como uma heroína de telenovela.

— Tio Henrique, por que você não vai encher o saco de outra pessoa? O Pierre tá ali no fundo, diz que adora ouvir suas histórias de pescaria.

— Tsc. Jovens de hoje não sabem ouvir um conselho — ele murmurou, indo embora.

Olhei pra ela com gratidão estampada no rosto.

— Eu devia ter te trazido um troféu, Steph.

— Pode me agradecer depois — ela piscou, encostando no meu ombro. — Agora vai falar com meu pai, que ele tá perguntando de você faz horas.

E lá fui eu, de coração cheio e suando em bicas, atravessar aquele campo de batalha familiar. Era confuso, barulhento, caótico — e, de um jeito inesperado, comecei a achar que eram exatamente onde eu queria estar.

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Caio estava sentado com Alec no colo, parecendo estranhamente confortável para um cara que dizia que tinha pavor de recém-nascidos até anos atrás. Clarice estava ao lado dele, rindo de alguma piada que a Alice contou — que, aliás, não fazia o menor sentido, mas tinha rendido gargalhadas de três adultos e um arrotinho do bebê.

Stephanie e eu nos aproximamos, e ela logo se jogou na cadeira ao lado da Clarice, apoiando os pés inchados num banquinho improvisado.

— E aí, casal queridinho da família Magalhães, como vocês estão se suportando? — ela perguntou, com aquele sorriso sacana.

Clarice riu e respondeu antes do Caio:

— No amor, na base do café e de umas boas ameaças veladas.

— E no caso do Caio, muito pão de queijo, porque ele só funciona com carboidrato — completou, olhando para ele com carinho.

— Isso é verdade — Caio disse, balançando Alec com uma mão e roubando uma coxinha com a outra. — Mas a verdade é que a Clarice manda melhor do que eu esperava. Acha que a gente briga, Tomás?

— Com certeza — respondi, já abrindo um sorriso. — Só de olhar, dá pra ver quem manda aí.

Clarice ergueu o punho em comemoração, e Stephanie gargalhou, jogando a cabeça pra trás.

— Eu não mando, eu lidero com diplomacia — Clarice corrigiu, piscando. — E você, Steph? Tá fazendo o Tomás sofrer muito?

— Todo dia um pouquinho. Mas ele aguenta firme, olha essa carinha de resistente — ela respondeu, afagando meu braço como se eu fosse um cachorrinho valente.

— Ah, isso aí ele tem — Caio comentou, me lançando um olhar meio cúmplice. — Pra aguentar a minha irmã, tem que ser ninja emocional. Mas, falando sério... vocês estão bem mesmo?

Olhei para Stephanie antes de responder. Ela me lançou um olhar tão sereno, tão genuíno, que eu quase esqueci que estávamos cercados de gente, crianças correndo, a minha sogra gritando na cozinha e um tio insuportável rondando.

— A gente tá se encontrando. Aos trancos e beijos, mas se encontrando — falei. — E cada dia com a Stephanie é um capítulo novo... às vezes de comédia, às vezes de drama, mas sempre interessante.

— Isso foi poético ou um aviso disfarçado? — Clarice brincou.

— Um pouco dos dois — respondi, rindo.

Stephanie pegou minha mão por debaixo da mesa e apertou de leve, e quando olhei pra ela, ela sussurrou:

— Mas essa história aqui vai ter final feliz, tá?

E eu acreditei. Mais uma vez.

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Na volta pra casa, o som da risada da Stephanie ainda ecoava dentro do carro. Ela estava contando — com detalhes dramáticos, é claro — a cena em que dona Edna quase jogou a colher de pau no pai dela por mexer no feijão antes da hora.

— E aí, do nada, ela virou e gritou: “Se encostar de novo, eu enfio essa colher onde o sol não bate, Eduardo!” — ela dizia entre risos, segurando a barriga com uma das mãos, enquanto a outra segurava um potinho de doce que o pai dela tinha obrigado a levar.

— Eu juro que nunca vi um senhor de quase setenta anos fugir tão rápido de uma panela — comentei, rindo, com uma mão no volante e outra relaxada na perna dela.

— É isso que me espera com você, né? Uma velhice barulhenta e cheia de ameaças culinárias?

— Com certeza. E talvez umas panelas voadoras também.

Ela gargalhou de novo, e eu sorri. Era um daqueles raros momentos em que tudo parecia calmo, leve, simples. Como se o mundo, por fim, tivesse parado de girar tão rápido. Mas bastou um segundo para tudo mudar.

Um farol forte surgiu do nada. Um carro vindo em alta velocidade, atravessando o sinal vermelho. Meu coração disparou. Tive apenas o tempo de soltar um palavrão e esticar o braço na frente da Stephanie, num instinto automático, puro reflexo de desespero.

— Stephanie!

O som do impacto veio logo depois. Um estrondo seco, metal contra metal. O carro foi arremessado para o lado, girando com violência. A última coisa que vi foi o rosto assustado dela. A última coisa que senti foi a dor aguda no peito, e depois... o nada.

O mundo apagou.

E a única certeza que tive, no último segundo de consciência, foi que minha única prioridade tinha sido protegê-la.

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