Feriado

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A caminho da rodoviária, Camila ainda tomada pelo rompante de paixão despertado pela comemoração de seu aniversário preparada por Lauren, se derreteu em carinhos e olhares apaixonados para a loira que dirigia sem pressa, como se quisesse prolongar o tempo juntas antes de se despedirem.


– Muito bem moça, está entregue, você tem exatamente quarenta minutos para comprar sua passagem e embarcar, já que tem tanta pressa de se embrenhar no mato e comemorar seu aniversário com suas amiguinhas...


– Gente... Você está encrencando com minhas amigas por que mesmo hein? São apenas caipiras como eu...


Camila ironizou. Lauren apertou os olhos tentando decifrar o que havia naquela ironia.


– Eu espero que o assunto mais picante entre vocês seja inseminação artificial de vacas...


– Não moro em um sítio! Nem minha amigas! Para sua informação, meus pais são comerciantes, a única loja de material de construção da cidade, nunca morei em sítio, fazenda ou nada parecido. E não entendo essa desconfiança, você mesma disse que tudo vira cinzas na quarta-feira...


– Não use minhas palavras contra mim! Muito espertinha você. Até imagino você com aquele monte de "Rosinhas" do Chico Bento à sua volta, fazendo fofoquinhas, pegando em você no seu quarto cheio de rendas e bordados, com uma varanda com vista panorâmica para a praça da cidade.


– Redondamente enganada! Meu quarto não tem nada de fru fru não. E a varanda do meu quarto fica nos fundos da minha casa, a visão não tem nada de panorâmico e ah! Minhas amigas não se parecem com a namorada do Chico Bento não sua boba! Para de implicar! Não entendo essa sua comoção toda.


– Não há nenhuma comoção, é só cuidado, gosto de cuidar do que é meu...


– Seu? O que eu sou sua então?


O momento certo para responder as questões que incomodavam Camila enfim surgiu. Lauren engoliu ar procurando palavras, quando foi salva pela campainha do seu celular.


– Fala Leleca! Como assim vocês já estão em Las Vegas? Vocês são loucas? Hoje ainda é sexta-feira! Embarco a noite. Tudo bem, vou direto encontrar vocês lá então. Juízo! Não façam nada que eu faria!


Lauren desligou o telefone com um sorriso descarado que se desfez instantaneamente quando encarou o olhar reprovador de Camila.


– ... uma amiga de Boston, imagine, ela já está em Las Vegas, desde ontem!


Camila não esboçou reação, manteve a expressão sisuda, nada satisfeita com a empolgação de Lauren, e principalmente pela loira ter vacilado na resposta sobre a relação das duas.


– Bom, espero que você se divirta por lá com suas amigas, agora preciso ir, se não perco o ônibus. Boa viagem Lauren.


Sem graça a fotógrafa deu um sorriso amarelo.


– Nem um beijinho de despedida? – Lauren falou fazendo bico.


Camila depositou um beijo na bochecha dela e saiu do carro sem olhar para trás. As dúvidas, o ciúme, a insegurança e a raiva dissipadas pela surpresa que Lauren fizera mais cedo, retornaram com toda intensidade da noite anterior, e foi pensando nisso que embarcou para sua cidade, na esperança de afastar por alguns momentos o pensamento de Lauren.


*********


– Mãe?

Camila entrou em sua casa, reconhecendo o cheiro inconfundível vindo da cozinha, de carne de panela da Maria, cozinheira da casa desde que Camila ainda era criança.


– Alguém em casa? Maria?


– Camilinha? Minha filha que saudade!


A velha senhora negra, abraçou com ternura Camila, que se emocionou com o carinho do gesto.


– Onde estão todos dessa casa Maria?


– Seu pai e sua mãe ainda não chegaram da loja, sua irmã saiu com as amigas, estão preparando uma matinê no ginásio da escola. Estávamos esperando você só para mais tarde, veio mais cedo por quê?


– Ah... Não teve todas as aulas, resolvi vir logo.


Camila disse, se sentando no balcão beliscando as panelas como era seu costume.


– Não seria por que tem gente ficando mais velha hoje hein?


Camila fez sua cara de menina sapeca, franzindo o nariz, despertando o sorriso de Maria.


– Você lembrou Mari?


– Claro! Olha ali o que preparei pra você.


Maria apontou com o queixo para a mesa, onde um bolo enorme coberto de chocolate estava exposto. Camila vibrou, batendo palmas com os olhos brilhando.


– Maria, eu vou tomar um banho, guardar minhas coisas, quando papai e mamãe chegarem, avisa que cheguei ta?


Estar em casa novamente para Camila lhe devolvia o mínimo de paz que precisava para afastar as dezenas de hipóteses que levantava sobre o comportamento de Lauren longe dela em plena capital do carnaval. Os pais e irmãos fizeram festa quando a encontraram em casa, depois do jantar em família, dividiram o bolo preferido da aniversariante na sobremesa.

Dona Sinu fez questão de avisar às amigas de Camila sobre sua chegada, nem eram tantas, mas, as três amigas mais próximas da moça logo chegaram para festejar sua presença e seu aniversário. Apesar de se sentir amada e acolhida em lugar seguro e familiar, Camila experimentava a sensação estranha de não estar inteira ali. O mês que passara em Nova York fora tão intenso, como um curso intensivo sobre a vida e sobre ela mesma, uma guinada de 180°, não podia deixar de pensar se aquelas pessoas, agora tão claramente parte de outro mundo guardado em seu passado, aceitariam a Camila que amadurecia e se descobria.

O carinho da família, a alegria que seu sobrinho de dois anos lhe dava, e toda rotina inocente que as amigas narrava, distraía Camila em alguns momentos, mas na maioria do tempo, seu pensamento voava até Las Vegas. Sem comunicação com Lauren, uma vez que a operadora de seu celular não tinha sinal na sua cidade, o que lhe restava eram suas hipóteses que davam vida na sua imaginação, a cenas nas quais Lauren nunca estava desacompanhada. Não tolerava sequer assistir o noticiário com flashes da folia de Vegas para não ser obrigada a incorporar mais adereços às cenas que criara.


Leis do Destino - CamrenOnde histórias criam vida. Descubra agora