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Por Marc Bartra

    Acordei sem nenhum motivo aparente. Levei a minha mão até ao telemóvel que se encontrava sobre a mesa de cabeceira (ou criado-mudo) e verifiquei que eram dez e quatro da manhã. A Lea dormia com a cabeça sobre o meu peito e os meus braços envolviam o seu corpo despido. 
   Comecei a passar as minhas mãos pelos fios escuros do seu cabelo, acarinhando-o com cuidado. 

    Questionava-me se merecia realmente que a Lea me perdoasse. Eu não era um bom namorado, estava longe de o ser. Para além de representar a máxima hipérbole do adjetivo ciumento, não conseguia passar para palavras o que sentia e, mesmo assim, tinha imensa dificuldade em demonstrar esses mesmos sentimentos.

     A prova disso era ter ficado sem falar com ela desde terça-feira. Não que eu não quisesse ou não gostasse dela mas eu simplesmente queria dedicar-me inteiramente a ela e acreditei, por algum tempo, que isso fosse a coisa certa. 

     Mas não era. Era uma péssima decisão. 

     Eu era sortudo porque a Lea esforçava-se para me tentar compreender. Nós tínhamos, de certa forma, crescido juntos ainda que como grandes amigos. E durante os cinco anos em que convivemos diariamente um com o outro, aprendemos a lidar com os respetivos defeitos. Até porque os defeitos dela não eram quase nada quando comparados com os meus. 

    Contudo, ela esforçava-se. Ela sempre se esforçou. E é por isso que eu, novamente, repito que sou muito sortudo por tê-la na minha vida. 

  — Bom dia, Marc...— Murmurou, esticando-se debaixo dos lençóis. A sua voz ensonada e o sorriso embaraçado eram apaixonantes e eu não consegui evitar que um sorriso se formasse nos meus lábios. Acariciei o seu rosto e depositei um beijo sobre a sua testa.— Já estavas acordado há muito tempo?

   Abanei negativamente a cabeça e apertei o seu pequeno corpo entre os meus braços. Ela voltou a alojar o seu rosto no meu peito e abandonou um beijo nessa área do meu tronco. 

  — Vamos ficar assim o dia todo? Eu não me importava nada.— Sussurrou sem erguer o seu rosto para me poder encarar. 

— Nem eu, amor.— Proferi, pousando o meu queixo sobre a sua cabeça.— Quero aproveitar todos os minutos que temos juntos até que vás para Barcelona. 

— Não é como se fosse por muito tempo, corazón.— Afirmou, elevando a sua face. Fitei os seus olhos escuros e exibi um largo sorriso.— Mas eu também quero aproveitar todos os minutos que temos juntos porque não sabemos o dia de amanhã... Nada me garante que as coisas vão correr como o planeado...

  — Tens razão. As coisas ainda vão correr melhor que o planeado.— Pisquei-lhe o olho. 

     A jovem rapariga aproximou o seu rosto do meu, selando os nossos lábios seguidamente. As minhas mãos percorreram o seu corpo, acabando por parar numa das suas coxas, segurando-a contra o meu corpo. Movíamos os nossos lábios de forma sintonizada e tudo parecia encaixar na perfeição. A Lea nos meus braços, os seus lábios nos meus. Estava tudo perfeito
     O calor que os nossos corpos irradiavam acabou por nos levar a repetir a noite anterior. A jovem latina subiu para cima do meu corpo enquanto o lençol deslizou pelas suas costas, deixando-a descoberta. Movi as minhas mãos para a sua cintura, observando atentamente o quão bonitas eram as suas curvas esculturais. 

     A sua pele morena combinava perfeitamente com os seus cabelos escuros e com a cor dos seus olhos. A Lea era linda. A Lea é linda. 

      Não consegui controlar o desejo que eu tinha por ela durante muito tempo. Numa questão de segundos, os nossos lábios estavam novamente colados e a minha língua explorava cada parte da sua boca. 

       Deixamo-nos levar pelo calor do momento e acabámos por, efetivamente, repetir a noite anterior. 

      Só me dei por satisfeito quando a minha ex namorada se deixou cair a meu lado, sobre a cama, com a respiração ofegante. 

  — Tinha saudades disto.— Proferiu num tom baixo enquanto tentava controlar a saída e entrada de ar nos seus pulmões.— Ninguém o faz como tu.

— Também tinha saudades disto. Na verdade, eu tinha saudades de tudo o que te envolve a ti.—    Sussurrei também, levando a minha mão até à sua.— Te amo.

Te amo, corazón.— Repetiu, piscando-me o olho. 

      

Worthless || Marc Bartra ✅Onde histórias criam vida. Descubra agora