Eu sempre fui diferente e tinha consciência disso. Não era algo que eu valorizasse como muita gente costuma fazer, afinal de contas ser diferente deveria ser algo bom não? Bem, não pra mim.
_Não posso dizer exatamente quando isso começou, desde que me lembro eu tinha essa timidez fazendo parte de mim como um órgão vital, não era algo do qual eu pudesse me desfazer -todos estavam no mais completo silêncio desde que falei a primeira palavra- no início eu não dei a devida atenção, afinal de contas existem pessoas tímidas no mundo, mas então essa timidez evoluiu, subiu de nível. Se eu já tinha dificuldades em me relacionar as coisas agora haviam tomado uma proporção ainda maior, eu não conseguia simplesmente agir em público, até com a minha família, eu não conseguia conversar nem mesmo com meus familiares mais próximos, e tudo isso por medo. Tudo que eu queria era ser uma borboleta para me fechar em meu casulo, eternamente, e era o que eu fazia no meu quarto, me trancava atormentada enquanto esperava o momento de ser obrigada a sair outra vez.
_Você pode dizer quando se deu conta de que se tratava de uma doença? -Dra. Cris me olhava tranquila tentando passar algum tipo de confiança
_Foi em um evento escolar, eu tinha que me apresentar em público e travei, acabei me tornando alvo de chacota por ter saído correndo, com isso recebia mais atenção do que gostaria, e uma atenção ruim -minhas mãos começavam a transpirar, me esforcei para voltar ao depoimento. Dessa vez eu não ia desistir- Depois disso me tranquei no quarto por uma semana, meus pais tentavam de tudo mas não obtinham sucesso, eles já estavam entrando em desespero quando pensaram em levar um psicólogo até lá, se eu não queria falar com eles talvez cedesse com outra pessoa. Foi quando fui diagnosticada com Transtorno de ansiedade social, ou fobia social. Passei a frequentar um psicólogo frequentemente, tomava remédio controlado e comecei a testar diferentes técnicas para minha recuperação, nenhuma delas parecia surtir muito efeito.
Era impossível não me lembrar de todo o tratamento cansativo a que fui submetida nos primeiros meses, meus pais queriam tentar de tudo, absolutamente tudo para me ver melhor. Eu é claro não contestava, mas também não me esforçava como deveria.
_Era terrível, os tremores, aperto no peito, o pânico que crescia cada vez mais, eu não queria continuar naquele tormento mas não conseguia achar uma saída para isso. Fiz psicoterapia e frequentei um psicólogo por três anos, até o dia em que desisti de tentar melhorar, nesse momento já não fazia mais tanta diferença persistir ou não com o tratamento -senti meus olhos lacrimejaram, era muito difícil me lembrar que talvez, se eu tivesse sido forte o suficiente, já estaria bem melhor agora- Você não sabe o quão terrível é não ter controle da própria vida, não conseguir se comportar da maneira que gostaria em público, minha doença começou a me afetar tanto que eu simplesmente pensei em desistir do convívio social para me trancar sozinha. A clínica foi recomendação da minha psicóloga, provavelmente a melhor coisa que ela fez por mim, eu me sinto melhor sabe -olhei pra Dra. Cris que abria um sorriso orgulhosa- e sinto que quando eu sair vou ser uma nova pessoa, mais capaz de bater de frente.
_Eu não tenho dúvidas quanto a isso -ela murmurou enquanto eu refletia sua felicidade
_Eu tive sorte de ter tido essa oportunidade, quem sofre do meu problema na vida adulta encontra dificuldades ainda maiores, você cresce e tem que arrumar um trabalho, socializar e isso tudo é tão difícil pra pessoas como nós. Eu sou muito grata também por vocês, eu não sei exatamente a razão pela qual isso aconteceu mas quando eu conheci todos vocês alguma coisa em mim mudou, eu não agi como teria agido com qualquer outro, acho que o fato de estarmos em uma clínica psiquiátrica todos em busca de um tratamento me trouxe uma ideia de que eu não estava sozinha. Eu sabia que não seria julgada por ficar vermelha, ou gaguejar ao falar alguma coisa, sabia que não sofreria com comentários maldosos por preferir ficar sozinha. Isso foi muito importante para que eu pudesse dar um primeiro passo na minha recuperação, ao me relacionar com vocês eu não percebi o que estava fazendo, não vi que estava conversando sem transpirar, ou ter um ataque cardíaco, muito menos que gostava disso -não pude impedir um sorriso de se formar- Eu estava fazendo o que mais tinha medo sem perceber, isso foi muito bom para que eu não parasse. Então, obrigada.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Minha geração problema
Teen FictionAlexia era uma garota normal, ou pelo menos queria ser. Ela não se lembrava exatamente quando começou a se sentir diferente, mas se lembrava de quando teve certeza que não era como as outras pessoas. Agora ela precisa provar que não tem um problema...