Capítulo 23

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A porta da igreja estava entreaberta, e Kyra tinha seus pés congelados no lugar, não conseguiu se obrigar a empurrar a porta totalmente para entrar. Estava tremendo muito, olhou atônita pela fresta e só viu as luzes das velas brilhando no altar, que toda manhã novos fieis deixavam e faziam promessas. Kyra olhou para rua vazia e por um momento se perguntou se todos que acordaram naquele dia, nem se levantaram da cama, porque em algum nível inconsciente sabiam bem o que estava acontecendo.

Cambaleou pelos degraus da escada e se agarrou a madeira velha da pesada porta, olhou para frente como se fosse a primeira e última vez, e algo no seu peito dizia que era realmente a única vez que pisaria aquela igreja. Estendeu a mão e empurrou a porta, abrindo a quase totalmente.

E na sua mente, foi como se tivesse voltado no passado, há quase nove anos quando o seu pesadelo começou. E ela teve que lembrar para prosseguir.

Quando empurrou a porta do seu quarto, a pequena Kyra arrastou seu ursinho de pelúcia pelo chão em uma das mãos, seus pais estavam gritando outra vez. Era fim de tarde, mas sua mãe já tinha a preparado para dormir e colocado seu pijama branco, aquele com laços brancos que a pinicavam como formigas em sua pele. Sentia fome, mas não queria descer as escadas e dar de cara com todas aquelas pessoas lá embaixo outra vez.

Agarro-se na balaustrada e ajoelhou no chão, deixando seu ursinho cair no meio do corredor escuro, e olhou para baixo, tomando cuidado para não ser vista pelos adultos. Seu pai ficaria bravo de novo. Se papai ficar bravo, ele vai me queimar com cigarro outra vez, pensou, e Kyra não queria outra queimadura circular na palma da sua mão, doía.

­­­­­­­ㅡ Eu já disse, ninguém vai tocar na minha filha! ㅡ Ouviu a sua mãe erguer a voz.

ㅡ Sua filha? ㅡ Foi Amélia Lodge quem rebateu, Kyra podia ver apenas os seus pés sacudindo impaciente lá embaixo no sofá. ㅡ Esse nunca foi o combinado Kyra. Você sabe desde o início que teria um preço.

Mais passos nervosos de um lado para o outro.

ㅡ Charlotte, não. ㅡ Kade Jones segurou a mão da esposa nervosa e a fez se sentar outra vez. ㅡ Já falamos sobre isso um milhão de vezes. Essa é a vontade dele, e assim será.

Charlotte choramingou.

ㅡ É só uma criança, Kyra ainda é só uma criança! ㅡ Ela colocou as mãos no rosto. ㅡ Eu preciso de mais tempo com a minha filhinha.

Kade abraçou a mulher mas não disse nada, deixou a se acalmar por si mesma. Todos da vizinhança estavam ali e em silêncio. Os dois não eram exatamente velhos, mas Charlotte já tinha mais de cinquenta e Kade quase tocava os seus sessenta anos, eram pais velhos, um milagre.

ㅡ Porque a minha filha? ㅡ Ela gritou ㅡ Porque não a de qualquer um aqui?

ㅡ Ela não é sua filha. Você sabe que não podia ter filhos Charlotte. ㅡ Michael Meserve uniu as mãos tentando convence-la. ㅡ Ele a presenteou com todo esse tempo com a criança, e agora é hora de dar a garota de volta a Ele.

Kyra ouvia seu nome, mas não entendia realmente o que todos aqueles adultos diziam. Era pequena demais para compreender algo mais, sentia fome, e tudo que conseguia pensar.

ㅡ E se eu não quiser? Vocês não podem me obrigar a nada. Não podem!

ㅡ Você vai pagar o preço, todos nós vamos pagar o preço por sua estupidez, Lottie. Ora, use a cabeça, você sabia disso desde o inicio.

ㅡ Ela pertence ao rei vermelho. Salve ao verdadeiro rei.

ㅡ Salve ao verdadeiro rei, deus da prosperidade! ㅡ Disseram todos em uníssono.

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