1 - Edith

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Julho de 1950 - PARTE I

Eram raros os dias em que Edith não estava vestindo-se de preto. Nesse dia, ela não estava. Conversava com o padre Heiner na cozinha da casa paroquial. Tomava um café forte, sem açúcar. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque bem elegante e bem redondo na ponta da cabeça. As unhas grandes chamavam atenção quando ela pegava a xícara de café.

— Cinco anos Herr padre. — ela disse bebendo mais um gole do café.

— Eu lamento tanto até hoje Frau Schmidt. — disse o padre sentando-se na cabeceira da mesa. Estava mais magro, mais velho e mais triste.

— Sinto tanta falta da minha filha. — uma lágrima caia de seu olho esquerdo.

— Ela está em paz Frau Schmidt. Está no céu, com Deus. — o padre tentava confortá-la.

Nada tirava aquela dor do coração de Edith. Nada e ninguém.

Ela havia adotado o pequeno Samuel, que já estava com 14 anos. Ele era a alegria de sua vida agora. Cuidar dele era o que dava significado à sua vida.

E Strauss... ah! Eles estavam cada vez mais próximos. Jajá ele chegaria para irem passear. Tomar um sorvete, andar de mãos dadas nas ruas, ver os pássaros, as árvores e os passantes. Tocar-lhe as mãos era uma benção. Tocar-lhe os lábios era uma surpresa. Strauss e Edith.

Samuel estava na casa de Caleb, provavelmente brincando com Leonhard. Seu netinho Leonhard. Ele também dava sentido à sua vida. Era um milagre. Imaginar como ele nasceu, as circunstâncias, era de fato chamá-lo de um milagre. Era uma pena sua filha não estar ali para ver tudo isso. Lisie agora era um ponto na memória de todos. Ela era o sol, o vento e a chuva. Ela era a paz.

Edith cruzou as pernas e começou a olhar pela janela da casa paroquial. Seus olhos verdes brilhavam diante da luz do sol escaldante. Ela fitava a janela como se alguém estivesse ali, observando-a. Queria encontrar alguém pela janela.

— Está tudo bem Frau Schmidt? — questionou-lhe o padre.

— Está sim Herr padre. — ela enxugou seus olhos.

O padre tocou as mãos de Edith que estavam sobre a mesa. Pediu que ela rezasse e que pedisse paz à alma de Lisie.

Edith beijou a mãe direita do padre, pediu-lhe a benção e se levantou. Arrumou a barra do vestido à altura dos joelhos. Ajeitou o coque que já estava perfeito.

— Querida, está aí? — ouviu uma voz masculina conhecida. Strauss.

Ela se sentia privilegiada. Wichard nunca a chamou de querida. Nem nos primeiros anos de casamento.

— Estou sim meu bem. — respondeu sorrindo.

Ela se despediu do padre. Saiu cantarolando notas desconhecidas.

Caminhava com seus saltos em direção à saída da igreja. Viu Strauss e sorriu, mostrando dentes brancos e alinhados.

Deu um abraço no ex-sargento. E saíram caminhando por Stuttgart.

Renascenças da GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora