CAPÍTULO QUATORZE

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Mas um amanhecer surge no horizonte. Apenas e mais um dia da minha inesgotável existência. Veja só, eu um velho, tendo uma crise existencial. Pondero porém, que isso tem me ocorrido mais do que o costumeiro. Algo tem mudado dentro de mim. Algo que me faz esperar, e esperar.

Sempre esperar.

Ainda me lembro dela. Do seu doce cheiro, de rosas. Lembro do seu toque suave em meu rosto já tão quebrado pelo tempo. Ela não se importava com minha aparência, ela não se importava com minha palidez mórbida. Ela não se importava, era isso. Ela que sempre vem de um jeito ou de outro, independente do tempo que passe. Ela sempre vem. E sempre vai.

E continuo a esperar que ela, um dia, fique.

Oh, minha amada doce amada! Se pudesse ficar, se soubesse como me deixas quando sem aviso vais. Se vai como vento, como pó , você some. E fico aqui nesse mundo vazio com tua ausência incalculável. Contando os segundos com teu retorno breve.

Em minhas mãos seguro tua essência ancestral... sua, minha lembrança do que nos amaldiçoa. Do que me é tirado, do que me castiga pelo que sou. Oh, minha amada. Volte.

E fique.


Limpei as lágrimas que rolaram por meu rosto ao ler aquelas palavras tão profundas... era como se eu sentisse o que ele sentia... como se eu soubesse da espera dele. Voltei a folhear as páginas frágeis. Algumas páginas haviam sido danificadas com o tempo, tornando inlegível a leitura. Pulei para o final.

Essa noite um relâmpago clareou o céu de Veneza como o sol ilumina o amanhecer todas as manhãs. O grito dela ecoou por todo quarto, logo após, um choro agudo repercutiu calando-a fazendo-me correr em sua direção. Entrei no quarto como outrora, e seu corpo se encontrava sem vida. Fitei os rostos em choque das parteiras que encaravam espantadas para a cama da minha mulher, nos braços de uma das parteiras, uma criança envolta num lençol felpudo.

Me aproximei delas tirando a criança de suas mãos e abraçando-a com todo cuidado que me era possível.

Minha filha.


Olhei chocada para o diário em minhas mãos. O que era aquilo? Por que toda aquela história me tocara? Engoli em seco, tentando ignorar aquele mar de emoções que me acometera, apertando o diário contra meu peito. O alarme do toque de recolher me sobressaltou.

--Querida?—a consillier me chamou, sorrindo.—Vamos fechar, pode voltar amanhã caso não tenha terminado sua pesquisa.—assenti para ela e sai da biblioteca, carregando o diário comigo sem que ela percebesse.


Ele caminhou pelos corredores da velha mansão, que cada vez parecia mais vazia e sombria. Cada vez que ela partia, era como se parte dele, uma parte maior do que gostaria, fosse com ela. Mas agora, sua partida teria um peso maior. Dessa vez, a partida dela era... definitiva. Olhou para o pequeno pacote que carregava em seus braços. A menina dormia como um anjo. Alheia a todo mundo a seu redor. Ele a amava. Sim, era um fato desconhecido e novo para ele. Nunca imaginara que tal criatura lhe provocaria tal sentimento. Criatura que matara sua costela.

Não poderia prosseguir com tal loucura. Teria que dar um fim nisso, pelo menos até que fosse o momento de recomeçar. Um inimigo espreitava, esperando a primeira oportunidade. E ela era essa oportunidade. Se ele pusesse as mãos nela, tudo e todos estariam condenados.

RENASCEROnde histórias criam vida. Descubra agora